Procurando por São Benedito, o Santo Negro!
por
Alberto R. Fioravanti.
São
Benedito é chamado de Palermo, pela cidade na qual morreu ou de
São Fratello ou São Filadélfio pelo lugar em que nasceu, ou
também o Mouro ou o Negro pela cor de sua pele e pela sua
ascendência africana.
Introdução
São Benedito é para mim o irmão que
nunca tive e sei que ele é um companheiro nestas minhas caminhadas pelo mundo e
pelo que fiz no meu trabalho dentro e fora do Brasil. O motivo que me levou a
escrever estas páginas foram as memórias que estiveram aflorando na minha mente
relacionadas com São Benedito e pelas lembranças e saudades das minhas viagens através
da histórica ilha da Sicília, procurando por São Benedito, e pelo mundo onde
sem saber encontrava os rastros da passagem de São Benedito.
Sempre havia sonhado em visitar os
recantos históricos dos lugares onde nasceu, viveu e morreu São Benedito, esse
Santo do qual eu havia ouvido falar desde que eu era pequeno e brincava no gramado
dos jardins, em volta da Igreja da Irmandade de São Benedito em Campos dos
Goytacazes. Acho que foi São Benedito que me escolheu como amigo. Foi também nessa
sua igreja que pela primeira vez escutei falar sobre ele e entrei para fazer
parte de sua Irmandade, não fui coroinha, mas quando adolescente nela ajudei a
muitas ladainhas em louvor a São Benedito e levava o turibulo, foi também na sua
igreja onde me casei e nela foram batizados meus dois primeiros filhos.
Assim, quando fui morar em Roma, na
Itália, pelo meu trabalho com a FAO/ONU, a ideia de ir visitar os lugares onde
São Benedito viveu aflorou na minha mente e me empolgava. Foi logo depois do
Natal do ano de 1976 que realizamos nossa primeira visita à Sicília. Para isso
eu estudei com afinco os mapas da região e com a família fiz essa viagem de
carro, entrando na Sicília pelo estreito de Messina, indo em primeiro lugar à São
Fratello, onde São Benedito nasceu.
São Fratello, que antes se chamava
São Filadélfio era e ainda é uma pequena cidade, onde, ao olhar a localidade, seus
campos e o mar que se avistava ao longe, fiquei pensando como deveria ser o
pensamento daquele menino Benedito que devia ter sofrido por muitos atos de
preconceito. A paisagem vista de São Fratello certamente devia impressionar à
aquele menino simples que deveria pensar na grandiosidade da obra de Deus, e
que apesar das provocações dos meninos brancos que o perseguiam, não se
descuidava do seu trabalho de pastor.
Lembro que antes de tomar a autoestrada
para Catânia, do lado direito há a via Santa Maria di Gesù (Santa Maria de
Jesus) que nos leva do bairro do mesmo nome. Lá, depois de uma centena de
metros se chega a uma grande praça e continuando em linha reta, depois de
passar por um pequeno cemitério, se chega à entrada do convento dos Frades
Franciscanos de Santa Maria de Jesus. Esse é um belo e imponente edifício do
século XV, onde desde sua porta se sente a paz e o silêncio, e recomendo sua
visita.
O convento de Santa Maria di Jesus de
Palermo está localizado em uma colina na entrada sul da cidade, a pouca
distância do centro da cidade, e da vista para um pequeno vilarejo do mesmo
nome e é cercado por um cemitério histórico.
Toda a redondeza da a sensação de ser um lugar de oração e paz,
perto de onde está o corpo de São
Benedito. Esse convento foi construído em 1426 no sopé do monte Grifone, de
onde vemos um belo panorama da cidade de Palermo, e me encanta a paisagem que se
divisa ao chegar lá.
Diz uma lenda que em 1221,
regressando do Marrocos para Lisboa por problemas de saúde, o barco em que viajava Santo Antonio de
Lisboa, o desembarcou na Sicília em 1221 nas imediações de Palermo, e que seu
cavalo fugiu e ele o encontrou nas imediações de onde hoje foi construído o
Convento de Santa Maria de Jesus. Da
Sicília Santo Antonio foi para Assis, onde assistiu ao Capítulo Geral da Ordem
no dia 30 de maio de 1221.
Hoje
o Convento de Santa Maria de Jesus é habitado por poucos irmãos, mas uma vez,
há muitos anos atrás, o convento foi povoado por muitos irmãos que, no silêncio
e na oração, mantiveram esse lugar sagrado. Uma curta caminhada sob ciprestes nos
leva até a entrada da igreja. Ao nos aproximar do pátio do cemitério, depois da avenida principal,
chegamos logo ao convento. Na porta da Igreja ficamos impactados com uma
inscrição do credo escrito em latim e gravado na pedra.
Foi
logo após o Dia de Natal de 1976 que fomos lá pela primeira vez. Eu estava
maravilhado por poder estar passando em ruas e lugares por onde São Benedito também
havia caminhado. Éramos cinco pessoas, eu, minha esposa, meus dois filhos e uma
filha (minha última filha ainda não havia nascido). Toquei à porta do convento
e fomos cordialmente atendidos por um frade, ao qual me identifiquei como sendo
um devoto brasileiro de São Benedito e que gostaríamos de visitar o lugar onde
São Benedito estava enterrado (foi exatamente isso que lhe disse, pois pensava
que iria ao cemitério ver sua tumba). Ele
com muita atenção disse que nos iria levar ao Superior do Convento, que com
muita simpatia nos atendeu e disse que nos iria levar em visita a todos os
lugares que São Benedito viveu no convento. Essa foi uma emocionante visita,
pois parecia sentir a presença de São Benedito desde a cozinha onde trabalhava,
por todos os corredores por onde passava e na cela onde rezava e dormia no chão.
Na sua cela havia um quadro pintado por uma das sobrinhas de São Benedito, e um
quadro com o hábito que usava regularmente e que traduz a pobreza em que vivia.
Pensávamos
que nos levaria primeiro ao cemitério, mas nos levou à igreja. Pensei que fosse
para fazermos uma oração, mas ao entrar na igreja pela primeira vez, imediatamente
à direita, notamos que há uma urna de cristal na qual se vê os restos não
corruptos de uma pessoa. Nessa urna vimos um homem deitado para o descanso
eterno e com seu rosto coberto por uma máscara de cera e que reproduz sua a
aparência: se tratava de um frade negro e que nem todos sabem que esse homem foi
proclamado patrono e protetor de Palermo junto com Santa Rosália. Foi para nós
uma grande emoção estarmos lá, emoção que ainda hoje eu sinto no coração só de
pensar, que estávamos diante do corpo incorrupto de São Benedito.
Somente visitando é que se pode
sentir a grandeza do Convento Santa Maria di Jesus em Palermo e entender o
grande patrimônio histórico, artístico e religioso que existe dentro dele. Em
Palermo estávamos na capital siciliana, importante cidade da Itália, que nos
apresenta muitos fatos da história do mundo. Voltamos a Sicília em 1984, e dessa vez levando nossa
filha Ana Rachel, que havia nascido em 1980.
O impressionante foi sermos também levados
para visitar a parte mais alta do Convento de Santa Maria de Jesus, quase no
topo do Monte Grifone, onde com surpresa admiramos a chamada árvore de São
Benedito, cuja existência eu não fazia nenhuma ideia. Ela é certamente a árvore
mais antiga de Palermo e provavelmente um dos mais antigos ciprestes da Itália.
De acordo com a tradição ele se originou de uma prodigiosa enraização do bastão
que São Benedito havia encravado no terreno, ao lado da pequena cabana, agora a
capela, onde ele buscava o silêncio da natureza para rezar e se aproximar de
Deus e de sua querida Mãe Maria. Hoje o extraordinário cipreste tem um porte
majestoso. O cipreste de São
Benedito, apesar de seus mais de quatro
séculos de vida é um espectador atento ao que acontece nas região, não tendo se
abatido pelos incêndios e raios que caíram perto.
Um Santo negro protetor de Palermo?
É incrível, mas muita
gente se pergunta como um irmão africano, poderia chegar a ser o santo protetor
de Palermo? É isso mesmo amigos. E muitos ficam ainda mais espantados, ao saber
que ele era um simples irmão leigo, não sacerdote, que fazia trabalhos braçais no
convento e que ainda mais era analfabeto. Benedito não sabia ler nem escrever e
ainda assim, em seus em 65 anos de vida,
ele foi conselheiro de nobres e poderosos, foi amigo dos pobres e humildes, sabia
consolar os despossuídos e a instruir na sagrada escritura a doutores e a teólogos.
Ele sempre foi e é exemplo de vida para mim e para muitos. Se São Francisco de
Assis estivesse vivo no tempo de São Benedito, tenho certeza que ele ficaria
maravilhado com os exemplos desse irmão franciscano leigo que seguia e cumpria todos
os seus ensinamentos.
Gostaria de hoje
convidar os leitores para descobrir, ou redescobrir, quem foi este humilde
Santo cuja vida encarna perfeitamente o ideal cristão propagado por São Francisco
e que se tornou o emblema de sua vida Santa, impregnada do amor a Jesus Cristo.
No Brasil,
historiadores indicam que a devoção a São Benedito teria surgido com a
finalidade de facilitar a cristianização dos negros escravos. Não sou dos que
põem em dúvida os méritos de São Benedito, e do que ele fez no Convento de
Santa Maria de Jesus em Palermo, onde foi cozinheiro, fazia os mais humildes
serviços e chegou a ser superior da sua própria Ordem, ainda que ele não queria
aceitar. Tudo "por força dos milagres" a ele atribuídos, como a
transformação da água em peixes, num dia de fome no convento, por ele ter
carregado nos ombros uma árvore que dez homens não suportaram, pela ressurreição
de um cavalo de um lavrador pobre, pela luta contra os feitiços, etc.
Seu nascimento na escravidão
Foi na cidade de São
Filadélfio, hoje chamada de São Fratello, Diocese de Messina, Sicília, que a 31
de março do ano de 1524, nasceu Benedito Manasseri. Ele não foi uma criança
como todas as outras. Não porque ele se tornaria num grande Santo, mas ainda
mais porque era um "negro", filho de negros africanos, filho de
escravos comprados de mercantes inescrupulosos que trocavam seus produtos com
mercadoria humana.
No sul da Itália,
naqueles tempos, seria raro encontrar registros notariais que não contivessem
uma nota de venda de escravos ou inventários nos quais não estivessem listados,
entre os bens móveis e animais, também seres humanos. Uma vergonha que não
excluía os próprios eclesiásticos e as próprias comunidades religiosas, que apesar
das determinações oficiais do Papa Pio II, feitas em 1462 e que eram de grande
severidade para aqueles que praticavam tal comércio.
Tristemente os escravos
não tinham identidade própria, e de uma forma geral eles assumiam o sobrenome
de seu proprietário. O patrão-proprietário tinha direito de vida e morte sobre
seus "pertences" e muitas vezes os fazia casar entre eles (expresso
aqui "casar" porque estamos em num período de "cristianismo
fervoroso"), mas na realidade o que acontecia era de simples acasalamento.
Era próprio assim na
Sicília e os escravos eram tratados como animais, porque as crianças negras que
nasciam rendiam muito aos proprietários pois elas podiam ser vendidas como
qualquer animal. Vicente Manasseri não devia ser um mau patrão, mas mesmo assim
ele esperava investir no crescimento de seus escravos para vender os seus
filhos. Foi por isso que ele havia consentido que seu escravo Cristovão se
casasse com Diana Larcan, uma mulher negra, talvez liberta por seu dono (ou
patrão). No entanto, aparentemente o casal satisfez seu patrão, mas não de a luz a um enxame de "escravinhos". Segundo alguns historiadores, isso
aconteceu devido a uma escolha de castidade cristã de marido e da mulher. Vale
ressaltar que tanto Cristóvão como Diana eram negros de origem da Etiópia, mas
foram educados cristiansmente e na fé,
vivida santamente, onde a cor da pele não tinha nenhuma importância ou relevância.
O fato é que o dono deles lhes prometeu de dar a liberdade para o primogênito.
E foi assim que
aconteceu: o primeiro filho deles, que recebeu o nome de Benedito, nasceu livre
desde o nascimento. Depois de Benedito nasceu um irmão e duas irmãs, dos quais suas
histórias são pouco conhecidas. De toda forma, Vicente Manasseri, o dono dos
escravos, ficou satisfeito. Outro fato que chama a atenção nos pais de Benedito
é de que fizeram voto de castidade ao contraírem matrimônio, vivendo na
penitência, no trabalho e na oração. Foi o patrão quem persuadiu os pais à
exercerem os seus direitos de matrimônio, prometendo dar liberdade aos seus
descendentes.
Assim o fizeram,
assim nasceu Benedito, fruto de uma bênção especial de Deus: Bendito! Bendito!
Bendito! Era o ano de 1524. Nasceu livre quanto à condição, e mais livre quanto
à santa liberdade dos remidos pelo Sangue do Cordeiro. Dele se dizia: "Negro
e muito formoso", devido os traços finos de seu rosto. A formação cristã
do pequeno Benedito se deve à sua mãe, Diana, virtuosa e rica da graça do
Senhor. Benedito crescia em idade, sabedoria e graça diante de Deus e dos
homens. Cristovão e Diana, repartiam seu tempo entre a oração,o trabalho e a
educação de seu primogênito. Eles viviam santamente e desde pequeno, levavam
Benedito à Igreja.
Antigamente, o nome de São Benedito aparecia nos livros
litúrgicos como Benedito de São Filadelfio, pois era uma tradição dos Frades
que colocavam o nome da cidade onde tinha nascido o Santo, como se fosse
sobrenome dele. Hoje, este costume foi totalmente abandonado. Inclusive, com o
passar dos anos, o lugarejo onde ele nasceu até mudou de nome de São Filadelfio
para São Fratello (fratello em italiano quer dizer irmão). em honra ao irmão
Benedito, o qual permanece atualmente, como sendo o nome do lugarejo onde
nasceu São Benedito.
Por outro lado, Cristovão e Diana também foram muito
felizes ao escolher para o primeiro filho um nome tão sugestivo como é o nome
de Benedito, que significa “bendito”,
“abençoado” , naturalmente bendito e abençoado por DEUS. E de fato
Benedito se tornou um notável homem que soube santificar a sua existência, e
pela Vontade de DEUS, se tornou um admirável Santo.
Pouco se fala da vida dos pais de São Benedito, mas Cristovão
e Diana tiveram outros filhos: Marcos, Baldassara e Fradella. Esta casou-se com
um escravo chamado Antonio Nastasi, com o qual teve uma filha, chamada Violante,
que mais tarde entrou para um convento da Ordem Terceira de São Francisco. Ela
adotou o nome de Soror (Irmã) Benedita e viveu santamente. Ela morreu em
Palermo, e apesar de ser pouco difundida, há testemunhas que atestam milagres
operados por Deus com a sua intercessão.
Cristovão era
fervoroso, voltado para Deus, para a família e para o trabalho. Recitava
diariamente e com edificante piedade o Rosário e o ensinava a quantos que com
ele trabalhava. Diante dele ninguém blasfemava ou dizia obscenidades. Tantas
vezes que podia, ele se aproximava da Mesa Eucarística. Mereceu a confiança dos
patrões, pela honestidade e retidão que o caracterizavam no trabalho. Por isso,
foi nomeado chefe dos trabalhadores. Dispunha os seus bens em favor dos mais
pobres.
Um triste fato que
chama a atenção na vida do pai de Benedito, foi que por ciúmes, alguns de seus companheiros
de trabalho o caluniaram, dizendo que ele dilapidava os bens do patrão em nome
da caridade. O honesto feitor viu-se assim, do dia para a noite, deposto de seu
cargo, sofrendo vergonha e humilhação. Deus veio em seu socorro e os negócios
de Manasseri passaram a não ir bem e suas terras já não produziam como antes.
Morriam seus animais e seus campos eram vítimas de pragas.
O patrão percebeu a
injustiça que havia cometido e mandou chamar Cristovão e o reintegrou no cargo
de ofício, e com mais autoridade que antes. Ele fez ainda mais, deu ao seu
escravo piedoso e fiel, toda a liberdade para socorrer os pobres que o procurassem.
Deu muitas esmolas e os negócios de Manasseri prosperaram.
De acordo com os
testemunhos da época, desde pequeno Benedito cresceu em uma atmosfera de espiritualidade
que ajudou a sua educação e deu-lhe uma marca especial que o iria separar do então
comportamento da juventude contemporânea desde sua infância.
Sendo livre e
independente, o jovem Benedito devia prover ao seu próprio sustento. E assim
sempre lemos e ouvimos referencias dele trabalhando desde pequeno nos campos,
inclusive' com dois bois que tinha conseguido comprar com muitos sacrifícios. Foi
numa dessas ocasiões, quando estava trabalhando em fazendas da localidade,
durante a colheita, que aconteceu um encontro que iria marcar profundamente sua
existência: aquele que ele teve com o frei irmão Jerônimo Lanza. Um antigo
cavaleiro, que se retirou de suas atividades, primeiro num convento e, depois,
como um eremita nas montanhas ao redor de Caronia, que estavam a poucos quilômetros
de São Fratello.
Foi nesse encontro
que o próprio Lanza, ao defender o jovem Benedito, tendo escutado as
provocações feitas pelos jovens e colegas que estavam com ele no campo,
interveio e suas palavras soaram como uma insuspeitável profecia. O fato é que
logo depois disso, quando ainda estava na casa dos vinte anos, Benedito, vendeu
seus bois e distribuiu os lucros entre os pobres e seguiu a Frei Jerônimo Lanza
na vida do eremitério.
Vida de eremita.
Benedito vivia uma
vida difícil, feita de oração, jejum e penitência, em que se distinguiu sobre
os demais, tanto que sua fama começou a se espalhar pelas localidades vizinhas
e mais e mais pessoas vinham se acercar ao irmão para pedir conselhos, receber
bênçãos e invocar milagres.
Essa era uma fama
que não condizia com a vida eremítica do grupo, assim os frades, todos juntos,
foram forçados a transferir-se de eremitério em eremitério, uma vez perto de
Raffadali, no Agrigento nas cavernas de Mancusa, entre Carini e Partinico,
depois junto ao selvagem monte Pellegrino, perto de Palermo, onde, com a morte
de Frei Jerônimo Lanza, lhe foram confiadas as rédeas da empresa.
Depois de aproximadamente
dezoito anos, desde que Benedito havia entrado na vida eremítica, em 1562, quando
tinha 38 anos, o Papa Pio IV ordenou que a congregação dos frades chamados
"Lanza" fosse dissolvida: eles tiveram que deixar a vida eremítica e
abraçar uma das famílias religiosas existentes e aprovadas.
Relutantemente,
todos obedeceram e se dispersaram, ninguém sabe para onde. Benedito já havia
pensado em fazer parte da ordem dos Capuchinhos, mas estava indeciso quando ao
convento em que recolheria e assim foi orar na Catedral de Palermo, aos pés de
uma bela imagem de Nossa Senhora, e por três vezes ele recebeu um sinal divino e
entendeu estar sendo chamado para fazer parte da Ordem dos Frades Menores de
São Francisco. Sua vocação estava resolvida! Agradecendo à Maria, foi
imediatamente ao Convento de Santa Maria de Jesus, nas imediações de Palermo.
A Vida no
Convento
Benedito
foi acolhido no convento de Palermo nas encostas do monte Grifone: o Convento
de Santa Maria di Gesú. Chegando
lá, Benedito foi muito bem recebido e até estranhou. Mas logo, ficou sabendo
que sua fama de santo, já há muito tempo, era ali conhecida. Todos esperavam a
ocasião de conhecê-lo pessoalmente. Lá ele foi primeiramente incluído no
grupo de irmãos leigos da ordem. Apesar de já ser um religioso professo há mais de
10 anos, os superiores mandaram Frei Benedito para o convento de Sant’Ana di
Giuliana, para uma espécie de Noviciado, onde permaneceu por três anos, conduzindo
uma vida escondida e solitária. Ele retornou a Palermo, por volta de 1565 onde
passou o resto de sua vida.
Benedito já não era
um eremita, mas seu estilo de vida permaneceu praticamente inalterado: sua
comida sempre foi muito pobre, muitas vezes só pão; nunca tirou o cilício que
sempre usava; repousava pouco, principalmente no chão; e se dedicava aos
serviços mais humildes e cansativos. Rezava e meditava em todas as
oportunidades.
Seu analfabetismo relegou-o para a cozinha do convento. Da
cozinha sua piedade, humildade e milagres que lhe são atribuídos, sobretudo
curas, deu-lhe grande fama e admiração. Por causa de sua vida exemplar,
trabalho, oração e ajuda a todos, Benedito tornou-se um líder natural. Em 1578
foi convidado para ser o Guardião, (superior) do convento, cargo que aceitou
depois de muita relutância e ao ser recordado do seu dever de obediência.
Apesar de ser analfabeto, ele administrou o mosteiro com grande sucesso,
seguindo com rigor os preceitos de São Francisco. Organizou os
noviços, foi caridoso com os padres, e era o primeiro a dar exemplo nas orações
e no trabalho. Depois foi mestre de noviços e, em seguida, sem problemas retornar
para ser chefe da cozinha, onde seus pratos lhe deram fama de taumaturgo.
Benedito interrompia
as orações ou qualquer outra ocupação ao som das três badaladas do sino do
frade porteiro (que era um sinal acordado): então ele se apressava a acomodar
todas as pessoas que em grande número queriam falar com ele: a cada um sabia dar
os conselhos mais oportunos. Não é de se admirar, que Benedito era muito querido
por todas as pessoas de todas as classes: nobres, estudiosos, doutores, irmãos
e superiores religiosos, lhe pediam ajuda e lhe procuravam para pedir
conselhos, e que fossem recomendados em suas preces.
“De onde vem seu conhecimento e sabedoria?”
Perguntavam-lhe. E ele, com humildade respondia: “Vem do joelho no chão, da
oração, da adoração a Deus e do contato com ele no silêncio do coração.” Assim,
sua fama se espalhava cada vez mais e ele se tornava uma pessoa célebre, sem
nunca deixar a humildade e a alegria. Por isso, sua reputação de
santidade se espalhava por todas as partes até Nápoles ou Roma, e mesmo na Espanha
e em Portugal.
No entanto, ele era simples
e humilde de coração, tinha uma opinião muito baixa de si mesmo, se considerava
o menor dos homens e dizia ser um grande pecador. Muitas vezes visitava os
presos e os doentes, oferecendo-lhes todos os serviços e as obras de caridade e
exortando-os a paciência e a por sua esperança em Deus. Ele tinha tanto amor e
misericórdia para os necessitados que muitas vezes manteve o fruto de sua
abstinência e do jejum para dar aos pobres. E quando ele foi eleito superior do
convento de Palermo (atribuição que aceitou por obediência), insistiu que o porteiro
não rejeitasse qualquer pobre que viesse pedir uma esmola.
As crônicas e os
testemunhos da época também relatam muitos milagres reconhecidos ao irmão negro.
Premonições, aparições de anjos, estátuas que falam, multiplicação de alimentos,
cura os doentes e mortos que ressuscitam. Sempre que podia Benedito ia rezar
atrás do altar da igreja, e testemunhas indicaram que apesar de não haver velas
acesas se sentia uma luminosidade que provinha do local onde Benedito se encontrava
rezando. Honramos aqui a uma vida que viveu na pobreza e devotamente na oração,
na fé e no silêncio, cuja presença é sentida em nossos corações e não em
eventos extraordinários e sensacionais.
Cura de cancerosa
Antes de fixar-se no convento de Santa Maria, Benedito levou
vida eremítica em Nazana, durante oito anos, e em Mancusa, na região de
Palermo. Então, sua fama de santidade já ia alta. Certo dia em que atravessava
Mancusa, chamaram-no para ver uma doente num casebre. "Não posso fazer
muita coisa por ela, pois não sou sacerdote. Mas posso fazer-lhe uma visita e
rezar por ela", respondeu. "Me acode, Frei", gritava
a pobre mulher, roída por um câncer no seio, que se alastrava terrivelmente. "Me
dá uma bênção, por amor de Deus!"
Condoído pelas dores da enferma e pela aflição de seus
familiares, o Santo aproximou-se do leito, rezou com todos os presentes, animou
a enferma a ter Fé em Deus, e depois, a pedido dela, traçou o sinal da cruz
sobre a chaga do seio. Instantaneamente foi curada, restando-lhe uma cicatriz
apenas! Logo em seguida, Benedito bateu em retirada, para fugir de qualquer
agradecimento ou louvor.
Ressurreição de
mortos
Certa vez, quatro senhoras de
Palermo - Eulália, Lucrécia, Francesca e Eleonora, esta última com o filho de
cinco meses nos braços vieram visitar o Santo no convento de Santa Maria. De
regresso à cidade, ainda perto do convento, a carroça virou e prensou a
criança, que teve morte instantânea. Os frades vieram socorrê-las, e Benedito
deparou-se com a patética cena da mãe abraçada ao corpinho disforme.
Benedito aproximou-se e disse: "Pare
de chorar. A criança não está morta; pode dar-lhe de mamar". Os
circunstantes pensavam que o Santo delirava. Entretanto, mal a mãe lhe
obedecera, a criança começou a sorrir, deixando a todos atônitos.
Fato análogo sucedeu com o filho de
João Jorge Russo. Quando visitava o convento com sua esposa e alguns parentes,
a carroça em que viajavam caiu de uma ponte e a criança ficou esmagada.
"Tenham
muita confiança em Nossa Senhora. Vamos rezar". Esse
recurso à mediação da Santíssima Virgem, aliás, era uma constante em todas as
intervenções de São Benedito. Todos
se ajoelharam e começaram a rezar; ato contínuo, a criança abriu os olhos,
despertando do sono da morte.
Antes mesmo de fazer-se eremita - e
talvez este tenha sido o primeiro milagre operado por São Benedito -, trouxeram
à sua presença uma criancinha morta. Condoído, Benedito tomou aquele corpo
inanimado em seu braço esquerdo, e com a mão direita fez o sinal da cruz sobre
a pequena fronte enregelada. Após os presentes rezarem o Pai Nosso e a Ave
Maria, o milagre da ressurreição se realizou!
O Milagre das
flores
São Benedito tinha o costume de
recolher os restos de comida do convento em seu avental de cozinha, para distribuí-los
depois aos pobres. Certa vez ele se encontrou
com
o vice-rei da Sicília, Dom Marcantonio Colonna, que, atraído pela fama de sua
santidade, foi visitá-lo. Curioso, o ilustre visitante perguntou a Benedito o
que levava com tanto cuidado. Ele simplesmente abriu o avental e mostrou ...
flores, tão frescas e aromáticas, que o vice-rei levou-as para o altar de sua
capela particular.
Peixes que
aparecem e pães que se multiplicam
Nos processos de beatificação e
canonização de São Benedito estão ilustrados muitos fatos notáveis, estive
perto dos imensos volumes, mas pela forma da grafia da época não entendia o que
estava escrito. Conta-se que em certa ocasião acabaram as provisões do
convento. Era inverno e chovia torrencialmente. E os religiosos não tinham
sequer condições de sair para pedir esmolas.
Benedito pediu a um frade, que o
auxiliava na cozinha, que abrisse os Santos Evangelhos em qualquer lugar e
lesse o que estava escrito. A seguinte passagem foi lida: "Não vos
preocupeis com a vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem com o vosso
corpo, quanto ao que haveis de vestir. Olhai as aves do céu: não semeiam, nem
colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste as
alimenta" (Mt 6,25-26). Iluminado por essas palavras e movido pela
sua heroica confiança na Providência, o Benedito pôs-se a agir. Encheu com água
todas as panelas, tachos e latas grandes que havia no convento. Na manhã
seguinte, estavam cheios de peixes frescos, muitos deles vivos.
Em outra ocasião em que Benedito,
então superior do convento, deu ordem ao irmão porteiro, Vito da Girgenti, de
distribuir pão aos pobres, o religioso, vendo que a fila era enorme, reservou
no fundo do cesto alguns pães para os frades. O fato chegou ao conhecimento de
Benedito, que intimou o porteiro a chamar de volta todos os pobres que ficaram
sem pão: "Dê aos pobres tudo o que estiver na cesta mandou
Benedito -, pois a Providência nos socorrerá". Ao obedecer, o
irmão Vito notou maravilhado que o pão da cesta não se acabava mais; quanto
mais ele tirava, mais aparecia!
Os noviços
fujões
Certa vez, três noviços resolvem
fugir do convento e voltar para casa. De madrugada galgam o muro, e na rua,
quando cantam vitória pela pseudo-façanha, divisam um vulto que vinha ao seu
encontro. Era Frei Benedito, que os interpela: "Que jazem aqui a estas
horas? Voltem já para o convento!" E os aconselhou a rezar muito pela
perseverança na vocação.
Meses depois, eles caem de novo na
tentação de fugir, e tomam o maior cuidado para que ninguém saiba de nada.
Quando novamente ganham a rua, dão de frente com Frei Benedito, que abre os
braços, dizendo: "Alto lá, onde pensam que vão?" Os três
reconhecem um sinal de Deus a fim de perseverarem, pedem perdão ao Santo,
prometendo não mais reincidir na falta.
"O
Santo, o Santo"...
A cada milagre que acontecia, o povo
acorria à portaria do convento, aclamando e louvando o Santo. Sua popularidade
e veneração se tornaram tais que ele acabou, certa vez, transtornando uma
procissão de "Corpus Christi". Nessa ocasião, os frades
tomaram parte na procissão da Catedral de Palermo. E São Benedito foi designado
para portar a cruz processional, à frente do cortejo. Ao fixar os olhos no
Crucificado, sentiu-se arrebatado pelo amor a Nosso Senhor e entrou em êxtase.
Seu corpo passou a deslizar suavemente, sem que ele movesse os pés.
Ao ver aquilo, o povo irrompeu em
gritos de admiração: "Olhem o Santo, o Santo!" As filas da
procissão se desorganizaram completamente. Os encarregados da ordem gritavam
para que as pessoas se enfileirassem. Mas não houve jeito, e a procissão
retomou logo para a Catedral...
Um milagre em
favor da paz
De todos os milagres e graças
atribuídos à São Benedito um se destaca pela beleza e pelo seu significado.
Na revolução de 1820, as tropas dos
Bourbons passaram por Santa Ágata e daí enviaram uma mensagem aos habitantes de
São Fratello, pedindo pão para os soldados que estavam passando fome. Os
carbonários, a força revolucionária inimiga, responderam de maneira ofensiva,
que não mandariam ajuda nenhuma. Diante dessa resposta, os soldados, liderados
pelo General Pepe, resolveram atacar a cidade de São Fratello. Ao se
aproximarem da ponte que fazia limite entre as duas cidades, encontraram um
frade negro, com uma bandeira de paz. O exército parou e ouviu as súplicas do
frade:
- Paz, meus amigos. O povo de São Fratello
não tem culpa do que fizeram os carbonários. Eles estão em festa, celebrando um
filho seu, que consideram santo e nada sabem dos pedidos que vocês fizeram.
Apesar dos rogos do frade, os
soldados marcharam contra São Fratello. Ao entrarem na cidade, toparam com uma
procissão. E, num rico andor, a imagem de um frade negro, o mesmo que
encontraram pedindo paz.
- É ele, é ele, gritavam os soldados. O
general quis saber se na cidade existia outra frade negro.
- O único frade negro que tivemos foi
Benedito. Era um santo e por isso está recebendo as homenagens de seus devotos.
O exército dos Bourbons depôs suas
armas e muitos soldados se incorporaram à procissão, dando vivas ao frade
negro, promotor da paz.
Elenco de alguns fatos importantes da vida de São Benedito
no Convento de Santa Maria di Gesú:
*
foi recebido em festa pelo Guardião dos Franciscanos Frei Arcângelo de Scieli,
que conhecia sua fama de santidade;
* depois de poucos dias, foi enviado ao Convento de Sant'Ana di Giuliana, um
dos Mosteiros mais fervorosos da Ordem;
* após 3 anos, voltou ao Convento de Santa Maria di Gesú, onde ficaria até a
morte;
* seu primeiro ofício foi o de cozinheiro, juntando a atividade de Marta à
contemplação de Maria (Lc 10, 38-42). Ele fez da cozinha um santuário de oração, vivendo sempre alegre e cheio de
mansidão para com todos;
* início dos prodígios: o Capítulo da Ordem iria se realizar no Convento.
Devido a neve, os frades não poderiam mendigar conforme a Regra estabelecia.
Por descuido, o Superior não providenciou o necessário. Como a situação era
grave, Benedito chamou um de seus auxiliares e o mandou encher umas vasilhas de
água. Diante do espanto do Irmão, que sabia não haver carnes ou peixes para a
refeição, Benedito replicou: enche as vasilhas e cobre-as com tábuas.
Recolheu-se aos seus aposentos e pôs-se a rezar. Ao amanhecer, chama seu
auxiliar e vão à cozinha. Ali ocorreu o milagre: grandes peixes, suficientes para
várias refeições, estavam nas panelas;
* certo dia a carne chegou atrasada e os frades começaram a pedir a mesma.
Benedito disse que a mesma estava ao fogo há poucos minutos, mas iria ver o que
fazer. Encontrou a carne bem temperada, cozida e pronta;
* trinta operários prestavam serviços voluntários no convento. Certo dia,
porque vieram sem prévio aviso, encontraram as despensas do Convento vazias.
Benedito pôs-se em oração e serviu farta refeição aos operários e ainda
sobraram alimentos para a despensa;
* Sem lenha para o fogão, Benedito subiu ao monte e encontrou uma grande árvore
derrubada por raio. Seriam necessários vários homens fortes para conduzirem a
mesma. No entanto Benedito a colocou no ombro sem nenhum esforço, causando
espanto a todos os que viam a cena;
* O Arcebispo de Palermo, Dom Diogo d´Abedo, gostava de se recolher uns dias
para descansar e rezar no Convento de Santa Maria di Gesú. Vindo para as festas
do Natal, trouxe consigo grande quantidade de víveres. Na missa da aurora do
Natal, Frei Benedito, abrasado de santo amor, vai receber a Santa Comunhão.
Sente o Menino Jesus em seu coração como no presépio de Belém. Chora ao contemplar um quadro ao lado do Altar. Caiu em êxtase, ficando ali
várias horas arrebatado, sem pensar nos trabalhos da cozinha. Quando estava
para começar a Missa solene Pontifical, o Superior foi à cozinha e viu o fogo
apagado. Clamou por Benedito, reclamando o almoço para logo depois da Missa. O
Convento ficou em polvorosa, para não fazer feio diante do Arcebispo. Foi o
turiferário quem encontrou Benedito a contemplar o Menino Jesus , chamando sua
atenção quanto ao almoço. A resposta de Benedito o desconcertou: Não se aflija,
irmão! Após a Missa, acendeu uma vela e voltou a rezar. Os irmãos o injuriavam,
revoltados com a preguiça e o descaso do frade negro. Viam a vergonha diante
dos olhos. Benedito calou-se e calmamente acendeu o fogo.
Quando chegou o horário da refeição e o Superior ordenou a arrumação da mesa,
viram dois belos jovens acabando de preparar suculento banquete para o
Arcebispo e todos do convento. As injúrias se transformaram em louvores e
graças ao Senhor e ao humilde servo.
* Benedito era leigo e analfabeto. Mesmo assim, tornou-se Superior do Convento
e modelo admirável no governo daquela casa;
* em 1578, reuniu-se o Capítulo Provincial dos Franciscanos no Convento de
Santa Maria dos Anjos, em Palermo. Houve a separação da Reforma e da
Observância da Regra, sendo que o Convento onde Benedito morava passou à Ordem
Reformada. Frei Benedito foi eleito Superior, por sua santidade e servidão.
Enquanto todos se alegravam, Benedito se entristeceu e procurou o Padre
Superior, rogando que o liberasse desse cargo, pois era analfabeto e ignorante.
Seu Superior não o liberou e, em nome da Santa Obediência declarou: Doravante
serás o Superior do Convento de Santa Maria di Gesú. A Benedito coube somente
obedecer;
* sua firmeza e observância das Regras faziam com que o Convento tivesse uma
vida ativa e cheia de graça;
* alguns autores dizem ter sido Frei Benedito Mestre de Noviços. Há autores que
discordam, pois esse cargo era exercido somente por Presbíteros. Mas a dúvida
continua, pois já havia acontecido a exceção quando Benedito foi indicado para
o cargo de Superior, exercido também por um Presbítero;
* os noviços tinham grande admiração por Benedito e tinham nele um grande
conselheiro;
* Benedito tinha o Dom da Ciência Infusa. Sem saber ler ou escrever, conseguia
dar aulas sobre todos os assuntos ligados à Religião, à Ordem ou à Fé. Tinha
muita clareza, espírito e unção. Teólogos e Mestres ouviam atentamente o grande
santo;
* Segundo Frei Giacomo di Pazza, uma das testemunhas do processo de
beatificação, não se passava um dia sem que acontecesse um prodígio operado
pela intercessão de São Benedito;
* Um dos milagres operado em vida: várias senhoras, num carro puxado por
cavalos, sofreram um grave acidente, no qual D. Eleonora caiu sobre uma criança
de cinco meses de idade, tendo a criança morrido asfixiada. Diante do desespero
de todos, Benedito tomou a criança nos braços, põe a mão na testa gelada e
recita algumas orações. Entregando a criança, disse: a senhora já pode
amamentar a criança. A criança morta, em contato com o seio da mãe, adquire
vida novamente e suavemente suga o leite da mãe (na imagem tradicional, São
Benedito está carregando essa criança, e não o Menino Jesus, como muitos
acreditam);
* uma criança morreu esmagada sob o peso do pai e do carro puxado por cavalos
em que estava. Pedindo confiança em Deus e em Nossa Senhora, Benedito toma nos
braços a criança, enquanto inicia a oração. Ao fazer o sinal da Cruz sobre a
criança, esta abre os olhos e pôs-se a chorar e gritar. Ressuscitara
maravilhosamente;
* Também um cego recupera a visão quando Benedito lhe faz o sinal da Cruz sobre
os olhos; outro cego, que perdera a visão há um ano, sem conseguir resultados
com os médicos, recupera a visão quando Benedito lhe faz o sinal da Cruz sobre
os olhos;
* Incrível! até um cavalo é ressuscitado por Benedito, o cavalo que era do
serviço do Convento e que caíra num abismo;
* após servir os pobres, Frei Vito vira chegar soldados espanhóis famintos e
sedentos. Assustado, viu que havia poucos pães em seu cesto. Instado por
Benedito a servir os soldados, percebeu que o cesto não se esvaziava e assim
pôde alimentar grande contingente de soldados;
* um pescador pobre, pai de sete filhos, não conseguia pescar um mísero peixe
sequer. Vendo a aflição do pobre homem, Benedito orou e o pescador viu
quantidade inacreditável de peixes em sua rede; Muitas curas físicas foi
realizada por Deus sob a intercessão de São Benedito, em vida e após a sua
morte.
A morte de São Benedito
Em 4 de abril,
Páscoa, 1589, com a idade de 65 anos, após 30 dias de sofrimento para uma
doença muito grave, Benedito morreu em sua cela. Antes de receber a Eucaristia
pediu perdão para cada um dos irmãos. Em seguida, ele faleceu serenamente no
silêncio que tanto havia amado durante a sua vida.
Em fevereiro de 1589
Benedito caiu gravemente enfermo. Embora seu médico, de grande fama na região,
previsse sua morte, Benedito o alertou que ainda não havia chegado sua hora.
Portanto, recuperou-se. Em março tornou a adoecer, com uma febre muito alta.
Nenhum remédio o aliviava. Previu então sua morte e fez um pedido estranho:
"enterrem logo o meu corpo para que não tenham contrariedade".
Recebeu
a Unção dos Enfermos e o Viático, preparando-se para o encontro com o Senhor.
Não aceitou ainda a colocação das velas em suas mãos, pois avisaria quando
chegasse a hora. Recebeu a visita de Santa Úrsula e as onze mil virgens em
visão. Daí poucos minutos, chamou Frei Guilherme e mandou que acendesse a vela
e pusesse em suas mãos. Era chegada a hora. Exclamando "Jesus! Jesus!
Minha Mãe doce Maria! Meu pai São Francisco", Benedito faleceu na paz do
senhor. Era 19 horas de 4 de abril de 1589, terça-feira de Páscoa, aos 65 anos
de idade, dos quais passara 21 anos no mundo, 17 no Eremitério e 27 na Ordem
Franciscana.
Com efeito, no dia da morte e do
sepultamento houve um grande afluxo de gente para a festa do Divino, numa
igreja do Espírito Santo, nos arredores de Palermo, e por isso ninguém foi ao
convento.
No dia aprazado, o Santo recebeu o
consolo dos Sacramentos da Igreja: confissão, comunhão, extrema-unção,
inclusive a bênção papal. O enfermo senta-se na cama e, olhando para o
céu, reza e contempla. Invoca seus santos padroeiros: São Francisco de Assis,
São Miguel Arcanjo, os Apóstolos São Pedro e São Paulo.
Em determinado momento das orações,
e depois de uma visão de Santa Úrsula, Benedito - é esse o nome do moribundo -
pronuncia em alta voz: "Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu
espírito". Em seguida, deita-se, fecha os olhos e dá o último
suspiro. Naquele exato momento, não longe dali, Benedita Nastasi, sua sobrinha,
observando uma pombinha que entrara dentro de casa, ouviu a voz do tio:
- "Benedita, queres alguma coisa de lá.
- "De lá, onde, meu tio?" - indaga a
menina.
- "Lá do Céu, minha filha" - completa a
conhecida voz. E a pombinha desaparece ...
A
profecia de que era preciso enterrar logo o seu corpo, cumpriu-se após o
velório. Uma multidão invadiu o Convento querendo relíquias ou lembranças do
grande santo. Como o Cemitério da Comunidade onde
Frei Benedito foi sepultado, era um local com acesso difícil que começou a
tumultuar o serviço do Convento, porque a quantidade de visitantes era muito
grande e não cessava nunca, incomodando o silêncio da Comunidade. Resolveram
então colocar os seus restos mortais num local mais acessível ao povo., assim em
7 de maio de 1592, seu corpo foi transladado pela primeira vez e colocado na
Sacristia da Igreja, colocado num buraco na grossa parede, e numa nova urna. Do
seu corpo exalava sublime perfume, sendo seu corpo encontrado em perfeito
estado de conservação, sem uso de qualquer produto químico.
Entretanto, com o passar dos dias, a Sacristia virou uma
Capela, com o povo ali rezando e cantando, e assim ficou durante dezenove anos,
tirando o sossego e a tranquilidade da Comunidade Religiosa. Os Frades do
Convento de Santa Maria então pediram a Santa Sé uma nova transladação, levando
os despojos de São Benedito para dentro da Igreja mesmo. Assim, em 3 de
outubro de 1611 foi feita a segunda transladação do corpo, colocado em urna de
cristal. Ainda hoje continua conservado, exposto bem visível em urna de cristal,
para visitação pública, num altar lateral da Igreja de Santa Maria de Jesus.
Tive a satisfação de visitar todos
esses lugares, e de orar aos pés do altar onde está seu corpo incorrupto.
Processo de canonização
O processo de
canonização de São Benedito, o Mouro foi iniciado logo após a morte, desde 1594
e, novamente, em 1622. O julgamento foi realizado em 1625, mas foi interrompido
por uma normativa do Papa Urbano VIII, que havia sido editada naqueles anos.
O povo, no entanto,
com tolerância e, por vezes, com o incentivo dos Bispos continuaram a venerar a
Benedito como Santo. Seu culto difundiu-se rapidamente em toda a Sicília, em
Espanha, em Portugal e em muitos países da América Latina, especialmente junto
da população negra, que o reconheceram como um símbolo de esperança e redenção.
Em 24 de março de 1652 o Senado Palermo proclamou-o patrono e intercessor da
cidade, comprometendo-se a ir todos os anos no aniversário de sua morte, em uma
peregrinação ao seu túmulo levando quatro velas grandes.
Em 15 de dezembro de
1743 o Papa Bento XIV proclamou-o abençoado. Nos anos subsequentes continuaram
os pedidos de canonização até que em 1777 foram reconhecidos pela Congregação
dos Ritos o heroísmo de suas virtudes e em 1790 os dois necessário milagres. Finalmente
em 24 de maio de 1807, na solenidade da Santíssima Trindade, o Papa Pio VII,
com a Bula "Civitatem Sanctam",
Benedito foi proclamado Santo: o primeiro santo negro da história.
A Devoção a São Benedito
Durante sua vida, todos queriam ver e
tocar em São Benedito, por causa de sua fama de santidade, palavras, milagres e
orações. Os escravos simpatizavam muito com ele, por ser negro, pobre e com
grandes virtudes.
Em
torno do seu nome surgiram numerosas irmandades, e São Benedito é o padroeiro dos afro-americanos, e
é lembrado por sua paciência e compreensão quando ele enfrentou o preconceito
racial. A devoção a São Benedito se espalhou pelo mundo. Inclusive nos Estados
Unidos, existem pelo menos cinco paróquias católicas romanas, negras, que levam
seu nome: uma em Queens, Nova Iorque, uma em Chicago, Illinois, uma em Omaha,
Nebraska, uma em South Columbus, Geórgia e outra em Savannah, Geórgia. No ano
de 2000, quando passamos quase todo esse ano em Savannah, pelo tratamento de
câncer de minha esposa, enquanto que trafegava por uma rua, por surpresa vimos
um anuncio indicando a Igreja de São Benedito, o Mouro. Fomos lá, conhecemos o
pároco e íamos sempre missa na Igreja de São Benedito em Savannah, e
regressamos lá nos anos seguintes, quando íamos a Savannah visitar nossa filha
e para os exames periódicos de minha esposa..
Inegavelmente que a
devoção de São Benedito é generalizada na América Latina, do México à
Argentina, especialmente na Venezuela, onde sua devoção se estende por todos os
vários Estados do país e é comemorado em várias datas diferentes, de acordo com
as tradições locais. Como por exemplo na costa oriental do Sul do Lago de
Maracaibo, realizada em 27 de dezembro (e Palmarito, Santa Maria, San Jose e
San Antonio), a 1 de janeiro de Bobures e 6 do mesmo mês em Gibraltar, entre
outros. Na Colômbia, há um município no departamento de Santander, que leva seu
nome, e do qual São Benedito é o Santo patrono.
Ele é conhecido na
Venezuela, especialmente nos planaltos dos Estados andinos como Mérida,
Táchira, e Trujillo. No Peru, na cidade de Lima, tive a satisfação de ver sua
imagem venerada na Igreja de San Francisco de Assis, localizado no centro
histórico, onde, no dia 4 de cada mês, é celebrada uma missa em sua dedicação e
de onde sua imagem é levada em procissão. Em Leon, na Nicarágua e em Antigua,
na Guatemala, com alegria vi sua imagem sendo venerada em igrejas históricas.
O
culto de São Benedito também é um dos principais cultos afro-católicos no
Brasil, cuja devoção nos foi trazida pelos portugueses, e são inúmeras as
paróquias e capelas que o escolheram como padroeiro, inspiradas em seu modelo
admirável de caridade e humildade.
Embora
introduzido pela própria igreja, se culto serviu, como o de Nossa Senhora do
Rosário, para nuclear em torno de si homens que possuíam suas crenças próprias,
advindas do próprio meio de que vieram: os escravos africanos. São Benedito é um
dos santos mais comemorado numa variedade de datas através do Brasil. Isso de
acordo às tradições locais, tradições essas que injustamente foram abandonadas em
algumas localidades brasileiras.
O Estado da Bahia foi o pioneiro na
devoção a São Benedito em terras brasileiras. Já antes mesmo de sua canonização
havia lá uma irmandade em sua honra. Simultaneamente, a devoção ao Santo deitou
profundas raízes no Maranhão. Sabe-se da existência de imagens de São Benedito
pelo menos desde 1680, em Olinda, Recife, Igaraçu (PE), Belém do Pará e Rio de
Janeiro.
O mesmo sucedeu em São Paulo. Um
século antes dele ser declarado santo pela Igreja, São Benedito já era venerado
como tal nas igrejas frequentadas pelos membros da Venerável Irmandade de Nossa
Senhora do Rosário dos Homens Pretos (1707). Hoje a devoção a São Benedito é um
fenômeno nacional. Não faltam pelo Brasil afora paróquias, capelas, ou ao menos
um altar com a imagem do Santo Negro.
Foi
com surpresa que soube que apesar de São Benedito não ser o padroeiro de Cuiabá
- essa função há décadas foi atribuída ao Senhor Divino -, ele “carrega nos
ombros” o peso do título de “protetor da cidade”. Em Cuiabá, São Benedito é cultuado
especialmente por pobres, negros, doentes e desempregados, e é o santo que superlota a igreja antes do dia
amanhecer, onde todas as terças-feiras centenas de idosos, jovens e até
crianças acordam às 4:30h para ir ao santuário para agradecer ou para pedir
alguma graça ao santo negro mais popular de Cuiabá.
O Culto a São Benedito em Campos dos
Goytacazes
A
devoção a São Benedito em Campos dos Goytacazes, como no Brasil é assim muito
antiga. Sabemos da existência de imagens de São Benedito desde inícios do
século XVII, que eram veneradas pelos negros escravos em cidades importantes da
época, como em Salvador, Rio de Janeiro, Olinda, Recife, Igaraçú (PE), e Belém
do Pará. A devoção a São Benedito é o que há de mais independente e autônomo
entre as devoções católicas, e que São Benedito é um ponto avançado da presença
negra no catolicismo, que ele considera tão marcadamente branco na sua
mentalidade.
Muitos autores ressaltam que São
Benedito é o santo que recebe uma das maiores devoções de todo o povo
brasileiro, apesar de ainda existir no Brasil a irracionalidade do preconceito
racial. A esse respeito, São Benedito é o santo dos grandes, mas principalmente
dos pequenos, e adverte: “diz o povo que
São Benedito castiga, e que quem não o invoca, ao menos o respeita”. Sobre
isso, os antigos Irmãos de São Benedito sempre contavam história falando que “ninguém deve menosprezar ou burlar das
coisas dos devotos de São Benedito pois o santo não suporta essas atitudes”.
A
devoção a São Benedito é o que há de mais independente e autônomo entre as
devoções católicas no Brasil. A documentação disponível indica que no processo
de evangelização em Campos dos Goytacazes, como de maneira geral no Brasil, os
escravos se reuniam informalmente para escutar dos missionários, as passagens
da bíblia e muitas vezes relatos da vida de Benedito, um negro como eles e
filho de escravos. Como facilmente se identificavam com esse personagem, que
sentiam como sendo um dos seus, a devoção a Benedito foi crescendo
continuamente pelo país.
De uma maneira geral nos conventos
(que possuíram muitos escravos), os escravos eram autorizados a reunir-se em
Irmandades como de Nossa Senhora do Rosário ou de São Benedito, já que por
serem negros não eram permitidos ingressar em outras irmandades e confrarias.
Como vemos, Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e o nosso humilde São Benedito
receberam a devoção dos escravos brasileiros e de seus descendentes que os
seguiam em suas próprias igrejas. Com o passar dos anos, São Benedito se juntou
aos devotos de Nossa Senhora do Rosário, e as igrejas do Rosário ou dos homens
pretos passaram a ser também de São Benedito.
Consta
da tradição da Irmandade de São Benedito que era grande o número de escravos,
libertos, e mestiços que participavam da Irmandade em Campos dos Goytacazes,
desde os fundadores, nos primórdios de sua existência, e que durante sua vida continuou
com muitos dos seus descendentes. Em Campos, não obstante o modo natural por
que a instituição da escravidão era encarada – mormente na época do maior
florescimento do tráfego negreiro, resultante da grande demanda de braços para
a lavoura em ascensão – os senhores, em geral, tratavam bem os escravos e
sempre que se lhes apresentava oportunidade não deixavam de demonstrar gratidão
àqueles que merecessem, alforriando-os incondicionalmente ou então os filhos,
logo depois de nascidos.
os senhores autorizavam, sem maiores problemas, a participação de seus escravos
aos serviços religiosos e aos atos da Irmandade.
Na verdade, mesmo antes da Carta
Regia de 31 de janeiro de 1701, já era costume entre os senhores de permitirem
aos seus escravos um dia livre por semana, quando eles podiam trabalhar por
conta própria, e muitos deles ofereciam esse dia para trabalhos na construção de suas
igrejas.
Não
poderia deixar de escrever sobre uma piedade falsa dos séculos 19 e 20 (até os
anos 50) que queria atribuir uma cor de pele morena, quase branca, ao nosso
santo, como se não ficasse bem a glorificação nos altares da raça negra. Lembro
que assim como São Benedito, também Santo Elesbão e Santa Efigênia são de cor
negra e deram muitas glórias à Nosso Senhor e à Igreja.
Conclusão:
São
Benedito é o primeiro negro canonizado na Igreja
e seu exemplo de vida merece ser seguido. Ele passou a maior parte de
sua vida religiosa na cozinha, a serviço dos irmãos, fazendo comida para os
irmãos de sua comunidade. Passou sua vida servindo, no amor, na humildade, na
alegria, conquistando a todos.
São
Benedito é um exemplo de vida centrada, feliz, humilde, simples. Ele foi um
homem que sabia quem era, senhor de si e que estava a serviço dos outros. Foi um
filho de escravos, nascido livre, mas que livremente se tornou escravo de
Cristo, conquistando a verdadeira liberdade dos filhos de Deus.
Desejo
também ressaltar que na porta de
sua cela, no Convento de Santa Maria de Jesus se encontra uma placa com a
inscrição em italiano indicando que era a Cela de São Benedito tendo embaixo as
datas 1524-1589, para indicar as datas do nascimento e de sua morte. Alguns
autores entretanto indicam 1526 como o ano de seu nascimento, mas eu concordo
com os Frades do Convento onde viveu São Benedito e com os historiadores que consideram
que a data certa é 1524.
Peço
sempre em minhas orações que São Bendito nos ajude a dar valor àquilo que
realmente tem valor nesta vida. Que ele nos ensine a ser alegres mesmo nas
dificuldades, e que interceda por nós para recebermos de Deus a graça de
exercer o amor fraterno e também colocando a nossa vida ao serviço dos irmãos. Ao elevar São Benedito aos altares, a Igreja quis que
nos lembrássemos continuamente que se um homem, comum e corrente, como
Benedito, pôde amar verdadeiramente ao próximo como a si mesmo, também todos
nós podemos!
Espero
que esta breve narrativa da minha experiência na busca de São Benedito possa
servir de motivo para que reflexionar sobre esse maravilhoso Santo e que sua
vida possa servir de exemplo para as nossas vidas.
Gostaria
também de sugerir a todos, que quando tiverem oportunidade, não deixem de visitar
a Sicília, na Itália e a Igreja de Santa Maria de Jesus em Palermo, como também
todos os lugares por onde São Benedito passou e viveu na Sicília. Estou certo
que nessa visita sentirão em seus corações toda a alegria que eu senti ao
procurar me encontrar com São Benedito.