segunda-feira, 30 de novembro de 2015

CELEBRAÇÕES NESTE FIM DE SEMANA.



CELEBRAÇÕES NESTE FIM DE SEMANA.
Alberto R. Fioravanti
Artigo publicado em 20 de novembro de 2015
no jornal “O Diário” de Campos dos Goytacazes, RJ. 

   Eu não sou santo, mas amanhã é o dia de Santo Alberto, bispo e mártir. Ele nasceu em Lovaina, Bélgica, em 1166, era filho de Godofredo III, duque de Brabant, e dentro do estado clerical, foi nomeado cônego de Liège, aos 12 anos de idade, quando era ainda um estudante.

Em 1191, foi eleito bispo de Liège, mas por interesses políticos dos nobres, não pode assumir a sede episcopal, embora tivesse sido confirmado pelo papa Celestino III. Em 24 de novembro de 1192, em Reims ele foi assassinado, quando se dirigia à abadia de Saint- Remi. Foi enterrado com honras na Catedral. Santo Alberto, vítima de forte disputa entre a nobreza de Brabant e a de Rainault pela posse da sede episcopal de Liège. Santo Alberto é um modelo na luta da independência da Igreja diante dos interesses do poder temporal.

   Amanhã é também o dia litúrgico da Apresentação de Nossa Senhora no templo. A festa decorre da devoção popular e se baseia na narrativa do Protoevangelho de Tiago, texto apócrifo, que fala da consagração de Maria ao Senhor quando ela foi apresentada ao templo, desde menina, e que prefigura o desenrolar de toda a sua existência, dedicada a Deus Pai, pelo Cristo, no Espírito Santo de amor. Pelo meu amor à Maria, não podia deixar de mencionar esse fato. 

   Sabemos que a Igreja encerra seu Ano Litúrgico com a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, que se celebrará no domingo. No entanto, poucos se dão conta de que se trata de uma festa relativamente recente, pois só foi instituída em 1925, portanto há menos de cem anos. Mas o que teria levado o papa Pio XI a dedicar a primeira encíclica de seu pontificado à criação de uma festa de Cristo Rei? Lembro que no início do século XX, o mundo que ainda estava se recuperando da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), fora varrido por uma onda de secularismo e de ódio à Igreja, como nunca visto na história do Ocidente. O fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha, o comunismo na Rússia, o anticlericalismos e os governos ditatoriais existentes em muitas partes. 

   É neste contexto que, sem medo de ser literalmente "politicamente incorreto", o papa Pio XI institui uma festa litúrgica para celebrar uma verdade de nossa fé: mesmo em meio a ditaduras e perseguições à Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo continua a reinar, soberano, sobre toda a história da humanidade. Recordar que Jesus é Rei do Universo foi um gesto de coragem do papa Pio XI, pois com as revoluções que seguiram a Primeira Guerra Mundial, o título de Cristo Rei tornara-se um tanto impopular. Se o Papa tivesse exaltado Jesus como profeta, mestre, curador de enfermos, servo humilde, certamente não haveria oposição política, pois qualquer outro título teria sido mais aceitável que o de Cristo Rei, que é um título de Jesus baseado em várias passagens bíblicas e, em geral, usado por todos os cristãos.

   A Igreja Católica, a Igreja Anglicana, bem como várias outras denominações cristãs protestantes, incluindo os presbiterianos, luteranos e metodistas, celebram, em honra de Cristo sob este título, a Festa de Cristo Rei no último domingo do ano litúrgico, antes que o novo ano comece com o primeiro domingo do Advento.  Que Deus traga Paz ao mundo! Paz e Bem!

Procurando por São Benedito, o Santo Negro!

Procurando por São Benedito, o Santo Negro!
por Alberto R. Fioravanti.













São Benedito é chamado de Palermo, pela cidade na qual morreu ou de São Fratello ou São Filadélfio pelo lugar em que nasceu, ou também o Mouro ou o Negro pela cor de sua pele e pela sua ascendência africana.

Introdução

            São Benedito é para mim o irmão que nunca tive e sei que ele é um companheiro nestas minhas caminhadas pelo mundo e pelo que fiz no meu trabalho dentro e fora do Brasil. O motivo que me levou a escrever estas páginas foram as memórias que estiveram aflorando na minha mente relacionadas com São Benedito e pelas lembranças e saudades das minhas viagens através da histórica ilha da Sicília, procurando por São Benedito, e pelo mundo onde sem saber encontrava os rastros da passagem de São Benedito.

            Sempre havia sonhado em visitar os recantos históricos dos lugares onde nasceu, viveu e morreu São Benedito, esse Santo do qual eu havia ouvido falar desde que eu era pequeno e brincava no gramado dos jardins, em volta da Igreja da Irmandade de São Benedito em Campos dos Goytacazes. Acho que foi São Benedito que me escolheu como amigo. Foi também nessa sua igreja que pela primeira vez escutei falar sobre ele e entrei para fazer parte de sua Irmandade, não fui coroinha, mas quando adolescente nela ajudei a muitas ladainhas em louvor a São Benedito e levava o turibulo, foi também na sua igreja onde me casei e nela foram batizados meus dois primeiros filhos.

            Assim, quando fui morar em Roma, na Itália, pelo meu trabalho com a FAO/ONU, a ideia de ir visitar os lugares onde São Benedito viveu aflorou na minha mente e me empolgava. Foi logo depois do Natal do ano de 1976 que realizamos nossa primeira visita à Sicília. Para isso eu estudei com afinco os mapas da região e com a família fiz essa viagem de carro, entrando na Sicília pelo estreito de Messina, indo em primeiro lugar à São Fratello, onde São Benedito nasceu.

            São Fratello, que antes se chamava São Filadélfio era e ainda é uma pequena cidade, onde, ao olhar a localidade, seus campos e o mar que se avistava ao longe, fiquei pensando como deveria ser o pensamento daquele menino Benedito que devia ter sofrido por muitos atos de preconceito. A paisagem vista de São Fratello certamente devia impressionar à aquele menino simples que deveria pensar na grandiosidade da obra de Deus, e que apesar das provocações dos meninos brancos que o perseguiam, não se descuidava do seu trabalho de pastor.

            Lembro que antes de tomar a autoestrada para Catânia, do lado direito há a via Santa Maria di Gesù (Santa Maria de Jesus) que nos leva do bairro do mesmo nome. Lá, depois de uma centena de metros se chega a uma grande praça e continuando em linha reta, depois de passar por um pequeno cemitério, se chega à entrada do convento dos Frades Franciscanos de Santa Maria de Jesus. Esse é um belo e imponente edifício do século XV, onde desde sua porta se sente a paz e o silêncio, e recomendo sua visita.

            O convento de Santa Maria di Jesus de Palermo está localizado em uma colina na entrada sul da cidade, a pouca distância do centro da cidade, e da vista para um pequeno vilarejo do mesmo nome e é cercado por um cemitério histórico.  Toda a redondeza da a sensação de ser um lugar de oração e paz, perto  de onde está o corpo de São Benedito. Esse convento foi construído em 1426 no sopé do monte Grifone, de onde vemos um belo panorama da cidade de Palermo, e me encanta a paisagem que se divisa ao chegar lá.

            Diz uma lenda que em 1221, regressando do Marrocos para Lisboa por problemas de saúde,  o barco em que viajava Santo Antonio de Lisboa, o desembarcou na Sicília em 1221 nas imediações de Palermo, e que seu cavalo fugiu e ele o encontrou nas imediações de onde hoje foi construído o Convento de Santa Maria de Jesus.  Da Sicília Santo Antonio foi para Assis, onde assistiu ao Capítulo Geral da Ordem no dia 30 de maio de 1221.

            Hoje o Convento de Santa Maria de Jesus é habitado por poucos irmãos, mas uma vez, há muitos anos atrás, o convento foi povoado por muitos irmãos que, no silêncio e na oração, mantiveram esse lugar sagrado. Uma curta caminhada sob ciprestes nos leva até a entrada da igreja. Ao nos aproximar do pátio do cemitério, depois da avenida principal, chegamos logo ao convento. Na porta da Igreja ficamos impactados com uma inscrição do credo escrito em latim e gravado na pedra.
           
            Foi logo após o Dia de Natal de 1976 que fomos lá pela primeira vez. Eu estava maravilhado por poder estar passando em ruas e lugares por onde São Benedito também havia caminhado. Éramos cinco pessoas, eu, minha esposa, meus dois filhos e uma filha (minha última filha ainda não havia nascido). Toquei à porta do convento e fomos cordialmente atendidos por um frade, ao qual me identifiquei como sendo um devoto brasileiro de São Benedito e que gostaríamos de visitar o lugar onde São Benedito estava enterrado (foi exatamente isso que lhe disse, pois pensava que iria ao cemitério ver sua tumba).  Ele com muita atenção disse que nos iria levar ao Superior do Convento, que com muita simpatia nos atendeu e disse que nos iria levar em visita a todos os lugares que São Benedito viveu no convento. Essa foi uma emocionante visita, pois parecia sentir a presença de São Benedito desde a cozinha onde trabalhava, por todos os corredores por onde passava e na cela onde rezava e dormia no chão. Na sua cela havia um quadro pintado por uma das sobrinhas de São Benedito, e um quadro com o hábito que usava regularmente e que traduz a pobreza em que vivia.

            Pensávamos que nos levaria primeiro ao cemitério, mas nos levou à igreja. Pensei que fosse para fazermos uma oração, mas ao entrar na igreja pela primeira vez, imediatamente à direita, notamos que há uma urna de cristal na qual se vê os restos não corruptos de uma pessoa. Nessa urna vimos um homem deitado para o descanso eterno e com seu rosto coberto por uma máscara de cera e que reproduz sua a aparência: se tratava de um frade negro e que nem todos sabem que esse homem foi proclamado patrono e protetor de Palermo junto com Santa Rosália. Foi para nós uma grande emoção estarmos lá, emoção que ainda hoje eu sinto no coração só de pensar, que estávamos diante do corpo incorrupto de São Benedito.

            Somente visitando é que se pode sentir a grandeza do Convento Santa Maria di Jesus em Palermo e entender o grande patrimônio histórico, artístico e religioso que existe dentro dele. Em Palermo estávamos na capital siciliana, importante cidade da Itália, que nos apresenta muitos fatos da história do mundo. Voltamos a Sicília em 1984, e dessa vez levando nossa filha Ana Rachel, que havia nascido em 1980.

            O impressionante foi sermos também levados para visitar a parte mais alta do Convento de Santa Maria de Jesus, quase no topo do Monte Grifone, onde com surpresa admiramos a chamada árvore de São Benedito, cuja existência eu não fazia nenhuma ideia. Ela é certamente a árvore mais antiga de Palermo e provavelmente um dos mais antigos ciprestes da Itália. De acordo com a tradição ele se originou de uma prodigiosa enraização do bastão que São Benedito havia encravado no terreno, ao lado da pequena cabana, agora a capela, onde ele buscava o silêncio da natureza para rezar e se aproximar de Deus e de sua querida Mãe Maria. Hoje o extraordinário cipreste tem um porte majestoso.  O cipreste de São Benedito,  apesar de seus mais de quatro séculos de vida é um espectador atento ao que acontece nas região, não tendo se abatido pelos incêndios e raios que caíram perto.

Um Santo negro protetor de Palermo?

            É incrível, mas muita gente se pergunta como um irmão africano, poderia chegar a ser o santo protetor de Palermo? É isso mesmo amigos. E muitos ficam ainda mais espantados, ao saber que ele era um simples irmão leigo, não sacerdote, que fazia trabalhos braçais no convento e que ainda mais era analfabeto. Benedito não sabia ler nem escrever e ainda assim, em seus  em 65 anos de vida, ele foi conselheiro de nobres e poderosos, foi amigo dos pobres e humildes, sabia consolar os despossuídos e a instruir na sagrada escritura a doutores e a teólogos. Ele sempre foi e é exemplo de vida para mim e para muitos. Se São Francisco de Assis estivesse vivo no tempo de São Benedito, tenho certeza que ele ficaria maravilhado com os exemplos desse irmão franciscano leigo que seguia e cumpria todos os seus ensinamentos.

            Gostaria de hoje convidar os leitores para descobrir, ou redescobrir, quem foi este humilde Santo cuja vida encarna perfeitamente o ideal cristão propagado por São Francisco e que se tornou o emblema de sua vida Santa, impregnada do amor a Jesus Cristo.

            No Brasil, historiadores indicam que a devoção a São Benedito teria surgido com a finalidade de facilitar a cristianização dos negros escravos. Não sou dos que põem em dúvida os méritos de São Benedito, e do que ele fez no Convento de Santa Maria de Jesus em Palermo, onde foi cozinheiro, fazia os mais humildes serviços e chegou a ser superior da sua própria Ordem, ainda que ele não queria aceitar. Tudo "por força dos milagres" a ele atribuídos, como a transformação da água em peixes, num dia de fome no convento, por ele ter carregado nos ombros uma árvore que dez homens não suportaram, pela ressurreição de um cavalo de um lavrador pobre, pela luta contra os feitiços, etc. 

Seu nascimento na escravidão

            Foi na cidade de São Filadélfio, hoje chamada de São Fratello, Diocese de Messina, Sicília, que a 31 de março do ano de 1524, nasceu Benedito Manasseri. Ele não foi uma criança como todas as outras. Não porque ele se tornaria num grande Santo, mas ainda mais porque era um "negro", filho de negros africanos, filho de escravos comprados de mercantes inescrupulosos que trocavam seus produtos com mercadoria humana.

            No sul da Itália, naqueles tempos, seria raro encontrar registros notariais que não contivessem uma nota de venda de escravos ou inventários nos quais não estivessem listados, entre os bens móveis e animais, também seres humanos. Uma vergonha que não excluía os próprios eclesiásticos e as próprias comunidades religiosas, que apesar das determinações oficiais do Papa Pio II, feitas em 1462 e que eram de grande severidade para aqueles que praticavam tal comércio.

            Tristemente os escravos não tinham identidade própria, e de uma forma geral eles assumiam o sobrenome de seu proprietário. O patrão-proprietário tinha direito de vida e morte sobre seus "pertences" e muitas vezes os fazia casar entre eles (expresso aqui "casar" porque estamos em num período de "cristianismo fervoroso"), mas na realidade o que acontecia era de simples acasalamento.

            Era próprio assim na Sicília e os escravos eram tratados como animais, porque as crianças negras que nasciam rendiam muito aos proprietários pois elas podiam ser vendidas como qualquer animal. Vicente Manasseri não devia ser um mau patrão, mas mesmo assim ele esperava investir no crescimento de seus escravos para vender os seus filhos. Foi por isso que ele havia consentido que seu escravo Cristovão se casasse com Diana Larcan, uma mulher negra, talvez liberta por seu dono (ou patrão). No entanto, aparentemente o casal satisfez seu patrão, mas não de a luz a um enxame de "escravinhos". Segundo alguns historiadores, isso aconteceu devido a uma escolha de castidade cristã de marido e da mulher. Vale ressaltar que tanto Cristóvão como Diana eram negros de origem da Etiópia, mas foram educados cristiansmente e na fé, vivida santamente, onde a cor da pele não tinha nenhuma importância ou relevância. O fato é que o dono deles lhes prometeu de dar a liberdade para o primogênito.

            E foi assim que aconteceu: o primeiro filho deles, que recebeu o nome de Benedito, nasceu livre desde o nascimento. Depois de Benedito nasceu um irmão e duas irmãs, dos quais suas histórias são pouco conhecidas. De toda forma, Vicente Manasseri, o dono dos escravos, ficou satisfeito. Outro fato que chama a atenção nos pais de Benedito é de que fizeram voto de castidade ao contraírem matrimônio, vivendo na penitência, no trabalho e na oração. Foi o patrão quem persuadiu os pais à exercerem os seus direitos de matrimônio, prometendo dar liberdade aos seus descendentes.

            Assim o fizeram, assim nasceu Benedito, fruto de uma bênção especial de Deus: Bendito! Bendito! Bendito! Era o ano de 1524. Nasceu livre quanto à condição, e mais livre quanto à santa liberdade dos remidos pelo Sangue do Cordeiro. Dele se dizia: "Negro e muito formoso", devido os traços finos de seu rosto. A formação cristã do pequeno Benedito se deve à sua mãe, Diana, virtuosa e rica da graça do Senhor. Benedito crescia em idade, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens. Cristovão e Diana, repartiam seu tempo entre a oração,o trabalho e a educação de seu primogênito. Eles viviam santamente e desde pequeno, levavam Benedito à Igreja.

            Antigamente, o nome de São Benedito aparecia nos livros litúrgicos como Benedito de São Filadelfio, pois era uma tradição dos Frades que colocavam o nome da cidade onde tinha nascido o Santo, como se fosse sobrenome dele. Hoje, este costume foi totalmente abandonado. Inclusive, com o passar dos anos, o lugarejo onde ele nasceu até mudou de nome de São Filadelfio para São Fratello (fratello em italiano quer dizer irmão). em honra ao irmão Benedito, o qual permanece atualmente, como sendo o nome do lugarejo onde nasceu São Benedito.

            Por outro lado, Cristovão e Diana também foram muito felizes ao escolher para o primeiro filho um nome tão sugestivo como é o nome de Benedito, que significa “bendito”, “abençoado” , naturalmente bendito e abençoado por DEUS. E de fato Benedito se tornou um notável homem que soube santificar a sua existência, e pela Vontade de DEUS, se tornou um admirável Santo.

            Pouco se fala da vida dos pais de São Benedito, mas Cristovão e Diana tiveram outros filhos: Marcos, Baldassara e Fradella. Esta casou-se com um escravo chamado Antonio Nastasi, com o qual teve uma filha, chamada Violante, que mais tarde entrou para um convento da Ordem Terceira de São Francisco. Ela adotou o nome de Soror (Irmã) Benedita e viveu santamente. Ela morreu em Palermo, e apesar de ser pouco difundida, há testemunhas que atestam milagres operados por Deus com a sua intercessão.

            Cristovão era fervoroso, voltado para Deus, para a família e para o trabalho. Recitava diariamente e com edificante piedade o Rosário e o ensinava a quantos que com ele trabalhava. Diante dele ninguém blasfemava ou dizia obscenidades. Tantas vezes que podia, ele se aproximava da Mesa Eucarística. Mereceu a confiança dos patrões, pela honestidade e retidão que o caracterizavam no trabalho. Por isso, foi nomeado chefe dos trabalhadores. Dispunha os seus bens em favor dos mais pobres.

            Um triste fato que chama a atenção na vida do pai de Benedito, foi que por ciúmes, alguns de seus companheiros de trabalho o caluniaram, dizendo que ele dilapidava os bens do patrão em nome da caridade. O honesto feitor viu-se assim, do dia para a noite, deposto de seu cargo, sofrendo vergonha e humilhação. Deus veio em seu socorro e os negócios de Manasseri passaram a não ir bem e suas terras já não produziam como antes. Morriam seus animais e seus campos eram vítimas de pragas.

            O patrão percebeu a injustiça que havia cometido e mandou chamar Cristovão e o reintegrou no cargo de ofício, e com mais autoridade que antes. Ele fez ainda mais, deu ao seu escravo piedoso e fiel, toda a liberdade para socorrer os pobres que o procurassem. Deu muitas esmolas e os negócios de Manasseri prosperaram.

            De acordo com os testemunhos da época, desde pequeno Benedito cresceu em uma atmosfera de espiritualidade que ajudou a sua educação e deu-lhe uma marca especial que o iria separar do então comportamento da juventude contemporânea desde sua infância.
            Sendo livre e independente, o jovem Benedito devia prover ao seu próprio sustento. E assim sempre lemos e ouvimos referencias dele trabalhando desde pequeno nos campos, inclusive' com dois bois que tinha conseguido comprar com muitos sacrifícios. Foi numa dessas ocasiões, quando estava trabalhando em fazendas da localidade, durante a colheita, que aconteceu um encontro que iria marcar profundamente sua existência: aquele que ele teve com o frei irmão Jerônimo Lanza. Um antigo cavaleiro, que se retirou de suas atividades, primeiro num convento e, depois, como um eremita nas montanhas ao redor de Caronia, que estavam a poucos quilômetros de São Fratello.

            Foi nesse encontro que o próprio Lanza, ao defender o jovem Benedito, tendo escutado as provocações feitas pelos jovens e colegas que estavam com ele no campo, interveio e suas palavras soaram como uma insuspeitável profecia. O fato é que logo depois disso, quando ainda estava na casa dos vinte anos, Benedito, vendeu seus bois e distribuiu os lucros entre os pobres e seguiu a Frei Jerônimo Lanza na vida do eremitério. 

Vida de eremita.

            Benedito vivia uma vida difícil, feita de oração, jejum e penitência, em que se distinguiu sobre os demais, tanto que sua fama começou a se espalhar pelas localidades vizinhas e mais e mais pessoas vinham se acercar ao irmão para pedir conselhos, receber bênçãos e invocar milagres.

            Essa era uma fama que não condizia com a vida eremítica do grupo, assim os frades, todos juntos, foram forçados a transferir-se de eremitério em eremitério, uma vez perto de Raffadali, no Agrigento nas cavernas de Mancusa, entre Carini e Partinico, depois junto ao selvagem monte Pellegrino, perto de Palermo, onde, com a morte de Frei Jerônimo Lanza, lhe foram confiadas as rédeas da empresa.

            Depois de aproximadamente dezoito anos, desde que Benedito havia entrado na vida eremítica, em 1562, quando tinha 38 anos, o Papa Pio IV ordenou que a congregação dos frades chamados "Lanza" fosse dissolvida: eles tiveram que deixar a vida eremítica e abraçar uma das famílias religiosas existentes e aprovadas.

            Relutantemente, todos obedeceram e se dispersaram, ninguém sabe para onde. Benedito já havia pensado em fazer parte da ordem dos Capuchinhos, mas estava indeciso quando ao convento em que recolheria e assim foi orar na Catedral de Palermo, aos pés de uma bela imagem de Nossa Senhora, e por três vezes ele recebeu um sinal divino e entendeu estar sendo chamado para fazer parte da Ordem dos Frades Menores de São Francisco. Sua vocação estava resolvida! Agradecendo à Maria, foi imediatamente ao Convento de Santa Maria de Jesus, nas imediações de Palermo.

A Vida no Convento

            Benedito foi acolhido no convento de Palermo nas encostas do monte Grifone: o Convento de Santa Maria di Gesú. Chegando lá, Benedito foi muito bem recebido e até estranhou. Mas logo, ficou sabendo que sua fama de santo, já há muito tempo, era ali conhecida. Todos esperavam a ocasião de conhecê-lo pessoalmente. Lá ele foi primeiramente incluído no grupo de irmãos leigos da ordem. Apesar de já ser um religioso professo há mais de 10 anos, os superiores mandaram Frei Benedito para o convento de Sant’Ana di Giuliana, para uma espécie de Noviciado, onde permaneceu por três anos, conduzindo uma vida escondida e solitária. Ele retornou a Palermo, por volta de 1565 onde passou o resto de sua vida.

            Benedito já não era um eremita, mas seu estilo de vida permaneceu praticamente inalterado: sua comida sempre foi muito pobre, muitas vezes só pão; nunca tirou o cilício que sempre usava; repousava pouco, principalmente no chão; e se dedicava aos serviços mais humildes e cansativos. Rezava e meditava em todas as oportunidades.

            Seu analfabetismo relegou-o para a cozinha do convento. Da cozinha sua piedade, humildade e milagres que lhe são atribuídos, sobretudo curas, deu-lhe grande fama e admiração. Por causa de sua vida exemplar, trabalho, oração e ajuda a todos, Benedito tornou-se um líder natural. Em 1578 foi convidado para ser o Guardião, (superior) do convento, cargo que aceitou depois de muita relutância e ao ser recordado do seu dever de obediência. Apesar de ser analfabeto, ele administrou o mosteiro com grande sucesso, seguindo com rigor os preceitos de São Francisco. Organizou os noviços, foi caridoso com os padres, e era o primeiro a dar exemplo nas orações e no trabalho. Depois foi mestre de noviços e, em seguida, sem problemas retornar para ser chefe da cozinha, onde seus pratos lhe deram fama de taumaturgo.

            Benedito interrompia as orações ou qualquer outra ocupação ao som das três badaladas do sino do frade porteiro (que era um sinal acordado): então ele se apressava a acomodar todas as pessoas que em grande número queriam falar com ele: a cada um sabia dar os conselhos mais oportunos. Não é de se admirar, que Benedito era muito querido por todas as pessoas de todas as classes: nobres, estudiosos, doutores, irmãos e superiores religiosos, lhe pediam ajuda e lhe procuravam para pedir conselhos, e que fossem recomendados em suas preces.

            “De onde vem seu conhecimento e sabedoria?” Perguntavam-lhe. E ele, com humildade respondia: “Vem do joelho no chão, da oração, da adoração a Deus e do contato com ele no silêncio do coração.” Assim, sua fama se espalhava cada vez mais e ele se tornava uma pessoa célebre, sem nunca deixar a humildade e a alegria. Por isso, sua reputação de santidade se espalhava por todas as partes até Nápoles ou Roma, e mesmo na Espanha e em Portugal.

            No entanto, ele era simples e humilde de coração, tinha uma opinião muito baixa de si mesmo, se considerava o menor dos homens e dizia ser um grande pecador. Muitas vezes visitava os presos e os doentes, oferecendo-lhes todos os serviços e as obras de caridade e exortando-os a paciência e a por sua esperança em Deus. Ele tinha tanto amor e misericórdia para os necessitados que muitas vezes manteve o fruto de sua abstinência e do jejum para dar aos pobres. E quando ele foi eleito superior do convento de Palermo (atribuição que aceitou por obediência), insistiu que o porteiro não rejeitasse qualquer pobre que viesse pedir uma esmola.

            As crônicas e os testemunhos da época também relatam muitos milagres reconhecidos ao irmão negro. Premonições, aparições de anjos, estátuas que falam, multiplicação de alimentos, cura os doentes e mortos que ressuscitam. Sempre que podia Benedito ia rezar atrás do altar da igreja, e testemunhas indicaram que apesar de não haver velas acesas se sentia uma luminosidade que provinha do local onde Benedito se encontrava rezando. Honramos aqui a uma vida que viveu na pobreza e devotamente na oração, na fé e no silêncio, cuja presença é sentida em nossos corações e não em eventos extraordinários e sensacionais.

Cura de cancerosa

Antes de fixar-se no convento de Santa Maria, Benedito levou vida eremítica em Nazana, durante oito anos, e em Mancusa, na região de Palermo. Então, sua fama de santidade já ia alta. Certo dia em que atravessava Mancusa, chamaram-no para ver uma doente num casebre. "Não posso fazer muita coisa por ela, pois não sou sacerdote. Mas posso fazer-lhe uma visita e rezar por ela", respondeu. "Me acode, Frei", gritava a pobre mulher, roída por um câncer no seio, que se alastrava terrivelmente. "Me dá uma bênção, por amor de Deus!"

Condoído pelas dores da enferma e pela aflição de seus familiares, o Santo aproximou-se do leito, rezou com todos os presentes, animou a enferma a ter Fé em Deus, e depois, a pedido dela, traçou o sinal da cruz sobre a chaga do seio. Instantaneamente foi curada, restando-lhe uma cicatriz apenas! Logo em seguida, Benedito bateu em retirada, para fugir de qualquer agradecimento ou louvor.

Ressurreição de mortos

            Certa vez, quatro senhoras de Palermo - Eulália, Lucrécia, Francesca e Eleonora, esta última com o filho de cinco meses nos braços vieram visitar o Santo no convento de Santa Maria. De regresso à cidade, ainda perto do convento, a carroça virou e prensou a criança, que teve morte instantânea. Os frades vieram socorrê-las, e Benedito deparou-se com a patética cena da mãe abraçada ao corpinho disforme.

            Benedito aproximou-se e disse: "Pare de chorar. A criança não está morta; pode dar-lhe de mamar". Os circunstantes pensavam que o Santo delirava. Entretanto, mal a mãe lhe obedecera, a criança começou a sorrir, deixando a todos atônitos.

            Fato análogo sucedeu com o filho de João Jorge Russo. Quando visitava o convento com sua esposa e alguns parentes, a carroça em que viajavam caiu de uma ponte e a criança ficou esmagada.

            "Tenham muita confiança em Nossa Senhora. Vamos rezar". Esse recurso à mediação da Santíssima Virgem, aliás, era uma constante em todas as intervenções de São Benedito.          Todos se ajoelharam e começaram a rezar; ato contínuo, a criança abriu os olhos, despertando do sono da morte.

            Antes mesmo de fazer-se eremita - e talvez este tenha sido o primeiro milagre operado por São Benedito -, trouxeram à sua presença uma criancinha morta. Condoído, Benedito tomou aquele corpo inanimado em seu braço esquerdo, e com a mão direita fez o sinal da cruz sobre a pequena fronte enregelada. Após os presentes rezarem o Pai Nosso e a Ave Maria, o milagre da ressurreição se realizou!

O Milagre das flores

            São Benedito tinha o costume de recolher os restos de comida do convento em seu avental de cozinha, para distribuí-los depois aos pobres. Certa vez ele se encontrou
com o vice-rei da Sicília, Dom Marcantonio Colonna, que, atraído pela fama de sua santidade, foi visitá-lo. Curioso, o ilustre visitante perguntou a Benedito o que levava com tanto cuidado. Ele simplesmente abriu o avental e mostrou ... flores, tão frescas e aromáticas, que o vice-rei levou-as para o altar de sua capela particular.

Peixes que aparecem e pães que se multiplicam

            Nos processos de beatificação e canonização de São Benedito estão ilustrados muitos fatos notáveis, estive perto dos imensos volumes, mas pela forma da grafia da época não entendia o que estava escrito. Conta-se que em certa ocasião acabaram as provisões do convento. Era inverno e chovia torrencialmente. E os religiosos não tinham sequer condições de sair para pedir esmolas.

            Benedito pediu a um frade, que o auxiliava na cozinha, que abrisse os Santos Evangelhos em qualquer lugar e lesse o que estava escrito. A seguinte passagem foi lida: "Não vos preocupeis com a vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem com o vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste as alimenta" (Mt 6,25-26). Iluminado por essas palavras e movido pela sua heroica confiança na Providência, o Benedito pôs-se a agir. Encheu com água todas as panelas, tachos e latas grandes que havia no convento. Na manhã seguinte, estavam cheios de peixes frescos, muitos deles vivos.

            Em outra ocasião em que Benedito, então superior do convento, deu ordem ao irmão porteiro, Vito da Girgenti, de distribuir pão aos pobres, o religioso, vendo que a fila era enorme, reservou no fundo do cesto alguns pães para os frades. O fato chegou ao conhecimento de Benedito, que intimou o porteiro a chamar de volta todos os pobres que ficaram sem pão: "Dê aos pobres tudo o que estiver na cesta ­mandou Benedito -, pois a Providência nos socorrerá". Ao obedecer, o irmão Vito notou maravilhado que o pão da cesta não se acabava mais; quanto mais ele tirava, mais aparecia!

Os noviços fujões

            Certa vez, três noviços resolvem fugir do convento e voltar para casa. De madrugada galgam o muro, e na rua, quando cantam vitória pela pseudo-façanha, divisam um vulto que vinha ao seu encontro. Era Frei Benedito, que os interpela: "Que jazem aqui a estas horas? Voltem já para o convento!" E os aconselhou a rezar muito pela perseverança na vocação.

            Meses depois, eles caem de novo na tentação de fugir, e tomam o maior cuidado para que ninguém saiba de nada. Quando novamente ganham a rua, dão de frente com Frei Benedito, que abre os braços, dizendo: "Alto lá, onde pensam que vão?" Os três reconhecem um sinal de Deus a fim de perseverarem, pedem perdão ao Santo, prometendo não mais reincidir na falta.

 "O Santo, o Santo"...

            A cada milagre que acontecia, o povo acorria à portaria do convento, aclamando e louvando o Santo. Sua popularidade e veneração se tornaram tais que ele acabou, certa vez, transtornando uma procissão de "Corpus Christi". Nessa ocasião, os frades tomaram parte na procissão da Catedral de Palermo. E São Benedito foi designado para portar a cruz processional, à frente do cortejo. Ao fixar os olhos no Crucificado, sentiu-se arrebatado pelo amor a Nosso Senhor e entrou em êxtase. Seu corpo passou a deslizar suavemente, sem que ele movesse os pés.

            Ao ver aquilo, o povo irrompeu em gritos de admiração: "Olhem o Santo, o Santo!" As filas da procissão se desorganizaram completamente. Os encarregados da ordem gritavam para que as pessoas se enfileirassem. Mas não houve jeito, e a procissão retomou logo para a Catedral...

Um milagre em favor da paz

            De todos os milagres e graças atribuídos à São Benedito um se destaca pela beleza e pelo seu significado.

            Na revolução de 1820, as tropas dos Bourbons passaram por Santa Ágata e daí enviaram uma mensagem aos habitantes de São Fratello, pedindo pão para os soldados que estavam passando fome. Os carbonários, a força revolucionária inimiga, responderam de maneira ofensiva, que não mandariam ajuda nenhuma. Diante dessa resposta, os soldados, liderados pelo General Pepe, resolveram atacar a cidade de São Fratello. Ao se aproximarem da ponte que fazia limite entre as duas cidades, encontraram um frade negro, com uma bandeira de paz. O exército parou e ouviu as súplicas do frade:

- Paz, meus amigos. O povo de São Fratello não tem culpa do que fizeram os carbonários. Eles estão em festa, celebrando um filho seu, que consideram santo e nada sabem dos pedidos que vocês fizeram.

            Apesar dos rogos do frade, os soldados marcharam contra São Fratello. Ao entrarem na cidade, toparam com uma procissão. E, num rico andor, a imagem de um frade negro, o mesmo que encontraram pedindo paz.

- É ele, é ele, gritavam os soldados. O general quis saber se na cidade existia outra frade negro.

- O único frade negro que tivemos foi Benedito. Era um santo e por isso está recebendo as homenagens de seus devotos.

            O exército dos Bourbons depôs suas armas e muitos soldados se incorporaram à procissão, dando vivas ao frade negro, promotor da paz.

Elenco de alguns fatos importantes da vida de São Benedito
no Convento de Santa Maria di Gesú:

* foi recebido em festa pelo Guardião dos Franciscanos Frei Arcângelo de Scieli, que conhecia sua fama de santidade;

* depois de poucos dias, foi enviado ao Convento de Sant'Ana di Giuliana, um dos Mosteiros mais fervorosos da Ordem;

* após 3 anos, voltou ao Convento de Santa Maria di Gesú, onde ficaria até a morte;

* seu primeiro ofício foi o de cozinheiro, juntando a atividade de Marta à contemplação de Maria (Lc 10, 38-42). Ele fez da cozinha um santuário de oração, vivendo sempre alegre e cheio de mansidão para com todos;

* início dos prodígios: o Capítulo da Ordem iria se realizar no Convento. Devido a neve, os frades não poderiam mendigar conforme a Regra estabelecia. Por descuido, o Superior não providenciou o necessário. Como a situação era grave, Benedito chamou um de seus auxiliares e o mandou encher umas vasilhas de água. Diante do espanto do Irmão, que sabia não haver carnes ou peixes para a refeição, Benedito replicou: enche as vasilhas e cobre-as com tábuas. Recolheu-se aos seus aposentos e pôs-se a rezar. Ao amanhecer, chama seu auxiliar e vão à cozinha. Ali ocorreu o milagre: grandes peixes, suficientes para várias refeições, estavam nas panelas;

* certo dia a carne chegou atrasada e os frades começaram a pedir a mesma. Benedito disse que a mesma estava ao fogo há poucos minutos, mas iria ver o que fazer. Encontrou a carne bem temperada, cozida e pronta;

* trinta operários prestavam serviços voluntários no convento. Certo dia, porque vieram sem prévio aviso, encontraram as despensas do Convento vazias. Benedito pôs-se em oração e serviu farta refeição aos operários e ainda sobraram alimentos para a despensa;

* Sem lenha para o fogão, Benedito subiu ao monte e encontrou uma grande árvore derrubada por raio. Seriam necessários vários homens fortes para conduzirem a mesma. No entanto Benedito a colocou no ombro sem nenhum esforço, causando espanto a todos os que viam a cena;

* O Arcebispo de Palermo, Dom Diogo d´Abedo, gostava de se recolher uns dias para descansar e rezar no Convento de Santa Maria di Gesú. Vindo para as festas do Natal, trouxe consigo grande quantidade de víveres. Na missa da aurora do Natal, Frei Benedito, abrasado de santo amor, vai receber a Santa Comunhão. Sente o Menino Jesus em seu coração como no presépio de Belém. Chora ao contemplar um quadro ao lado do Altar. Caiu em êxtase, ficando ali várias horas arrebatado, sem pensar nos trabalhos da cozinha. Quando estava para começar a Missa solene Pontifical, o Superior foi à cozinha e viu o fogo apagado. Clamou por Benedito, reclamando o almoço para logo depois da Missa. O Convento ficou em polvorosa, para não fazer feio diante do Arcebispo. Foi o turiferário quem encontrou Benedito a contemplar o Menino Jesus , chamando sua atenção quanto ao almoço. A resposta de Benedito o desconcertou: Não se aflija, irmão! Após a Missa, acendeu uma vela e voltou a rezar. Os irmãos o injuriavam, revoltados com a preguiça e o descaso do frade negro. Viam a vergonha diante dos olhos. Benedito calou-se e calmamente acendeu o fogo.
Quando chegou o horário da refeição e o Superior ordenou a arrumação da mesa, viram dois belos jovens acabando de preparar suculento banquete para o Arcebispo e todos do convento. As injúrias se transformaram em louvores e graças ao Senhor e ao humilde servo.

* Benedito era leigo e analfabeto. Mesmo assim, tornou-se Superior do Convento e modelo admirável no governo daquela casa;

* em 1578, reuniu-se o Capítulo Provincial dos Franciscanos no Convento de Santa Maria dos Anjos, em Palermo. Houve a separação da Reforma e da Observância da Regra, sendo que o Convento onde Benedito morava passou à Ordem Reformada. Frei Benedito foi eleito Superior, por sua santidade e servidão. Enquanto todos se alegravam, Benedito se entristeceu e procurou o Padre Superior, rogando que o liberasse desse cargo, pois era analfabeto e ignorante. Seu Superior não o liberou e, em nome da Santa Obediência declarou: Doravante serás o Superior do Convento de Santa Maria di Gesú. A Benedito coube somente obedecer;

* sua firmeza e observância das Regras faziam com que o Convento tivesse uma vida ativa e cheia de graça;

* alguns autores dizem ter sido Frei Benedito Mestre de Noviços. Há autores que discordam, pois esse cargo era exercido somente por Presbíteros. Mas a dúvida continua, pois já havia acontecido a exceção quando Benedito foi indicado para o cargo de Superior, exercido também por um Presbítero;

* os noviços tinham grande admiração por Benedito e tinham nele um grande conselheiro;

* Benedito tinha o Dom da Ciência Infusa. Sem saber ler ou escrever, conseguia dar aulas sobre todos os assuntos ligados à Religião, à Ordem ou à Fé. Tinha muita clareza, espírito e unção. Teólogos e Mestres ouviam atentamente o grande santo;

* Segundo Frei Giacomo di Pazza, uma das testemunhas do processo de beatificação, não se passava um dia sem que acontecesse um prodígio operado pela intercessão de São Benedito;

* Um dos milagres operado em vida: várias senhoras, num carro puxado por cavalos, sofreram um grave acidente, no qual D. Eleonora caiu sobre uma criança de cinco meses de idade, tendo a criança morrido asfixiada. Diante do desespero de todos, Benedito tomou a criança nos braços, põe a mão na testa gelada e recita algumas orações. Entregando a criança, disse: a senhora já pode amamentar a criança. A criança morta, em contato com o seio da mãe, adquire vida novamente e suavemente suga o leite da mãe (na imagem tradicional, São Benedito está carregando essa criança, e não o Menino Jesus, como muitos acreditam);

* uma criança morreu esmagada sob o peso do pai e do carro puxado por cavalos em que estava. Pedindo confiança em Deus e em Nossa Senhora, Benedito toma nos braços a criança, enquanto inicia a oração. Ao fazer o sinal da Cruz sobre a criança, esta abre os olhos e pôs-se a chorar e gritar. Ressuscitara maravilhosamente;

* Também um cego recupera a visão quando Benedito lhe faz o sinal da Cruz sobre os olhos; outro cego, que perdera a visão há um ano, sem conseguir resultados com os médicos, recupera a visão quando Benedito lhe faz o sinal da Cruz sobre os olhos;

* Incrível! até um cavalo é ressuscitado por Benedito, o cavalo que era do serviço do Convento e que caíra num abismo;

* após servir os pobres, Frei Vito vira chegar soldados espanhóis famintos e sedentos. Assustado, viu que havia poucos pães em seu cesto. Instado por Benedito a servir os soldados, percebeu que o cesto não se esvaziava e assim pôde alimentar grande contingente de soldados;

* um pescador pobre, pai de sete filhos, não conseguia pescar um mísero peixe sequer. Vendo a aflição do pobre homem, Benedito orou e o pescador viu quantidade inacreditável de peixes em sua rede; Muitas curas físicas foi realizada por Deus sob a intercessão de São Benedito, em vida e após a sua morte.

A morte de São Benedito

            Em 4 de abril, Páscoa, 1589, com a idade de 65 anos, após 30 dias de sofrimento para uma doença muito grave, Benedito morreu em sua cela. Antes de receber a Eucaristia pediu perdão para cada um dos irmãos. Em seguida, ele faleceu serenamente no silêncio que tanto havia amado durante a sua vida.

            Em fevereiro de 1589 Benedito caiu gravemente enfermo. Embora seu médico, de grande fama na região, previsse sua morte, Benedito o alertou que ainda não havia chegado sua hora. Portanto, recuperou-se. Em março tornou a adoecer, com uma febre muito alta. Nenhum remédio o aliviava. Previu então sua morte e fez um pedido estranho: "enterrem logo o meu corpo para que não tenham contrariedade".

            Recebeu a Unção dos Enfermos e o Viático, preparando-se para o encontro com o Senhor. Não aceitou ainda a colocação das velas em suas mãos, pois avisaria quando chegasse a hora. Recebeu a visita de Santa Úrsula e as onze mil virgens em visão. Daí poucos minutos, chamou Frei Guilherme e mandou que acendesse a vela e pusesse em suas mãos. Era chegada a hora. Exclamando "Jesus! Jesus! Minha Mãe doce Maria! Meu pai São Francisco", Benedito faleceu na paz do senhor. Era 19 horas de 4 de abril de 1589, terça-feira de Páscoa, aos 65 anos de idade, dos quais passara 21 anos no mundo, 17 no Eremitério e 27 na Ordem Franciscana.

            Com efeito, no dia da morte e do sepultamento houve um grande afluxo de gente para a festa do Divino, numa igreja do Espírito Santo, nos arredores de Palermo, e por isso ninguém foi ao convento.

            No dia aprazado, o Santo recebeu o consolo dos Sacramentos da Igreja: confissão, comunhão, extrema-unção, inclusive a bênção papal. O enfermo senta-se na cama e, olhando para o céu, reza e contempla. Invoca seus santos padroeiros: São Francisco de Assis, São Miguel Arcanjo, os Apóstolos São Pedro e São Paulo.
           
            Em determinado momento das orações, e depois de uma visão de Santa Úrsula, Benedito - é esse o nome do moribundo - pronuncia em alta voz: "Em vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito". Em seguida, deita-se, fecha os olhos e dá o último suspiro. Naquele exato momento, não longe dali, Benedita Nastasi, sua sobrinha, observando uma pombinha que entrara dentro de casa, ouviu a voz do tio:

- "Benedita, queres alguma coisa de lá.
- "De lá, onde, meu tio?" - indaga a menina.
- "Lá do Céu, minha filha" - completa a conhecida voz. E a pombinha desaparece ...

             A profecia de que era preciso enterrar logo o seu corpo, cumpriu-se após o velório. Uma multidão invadiu o Convento querendo relíquias ou lembranças do grande santo. Como o Cemitério da Comunidade onde Frei Benedito foi sepultado, era um local com acesso difícil que começou a tumultuar o serviço do Convento, porque a quantidade de visitantes era muito grande e não cessava nunca, incomodando o silêncio da Comunidade. Resolveram então colocar os seus restos mortais num local mais acessível ao povo., assim em 7 de maio de 1592, seu corpo foi transladado pela primeira vez e colocado na Sacristia da Igreja, colocado num buraco na grossa parede, e numa nova urna. Do seu corpo exalava sublime perfume, sendo seu corpo encontrado em perfeito estado de conservação, sem uso de qualquer produto químico.

            Entretanto, com o passar dos dias, a Sacristia virou uma Capela, com o povo ali rezando e cantando, e assim ficou durante dezenove anos, tirando o sossego e a tranquilidade da Comunidade Religiosa. Os Frades do Convento de Santa Maria então pediram a Santa Sé uma nova transladação, levando os despojos de São Benedito para dentro da Igreja mesmo. Assim, em 3 de outubro de 1611 foi feita a segunda transladação do corpo, colocado em urna de cristal. Ainda hoje continua conservado, exposto bem visível em urna de cristal, para visitação pública, num altar lateral da Igreja de Santa Maria de Jesus.
           
            Tive a satisfação de visitar todos esses lugares, e de orar aos pés do altar onde está seu corpo incorrupto.

Processo de canonização

            O processo de canonização de São Benedito, o Mouro foi iniciado logo após a morte, desde 1594 e, novamente, em 1622. O julgamento foi realizado em 1625, mas foi interrompido por uma normativa do Papa Urbano VIII, que havia sido editada naqueles anos.

            O povo, no entanto, com tolerância e, por vezes, com o incentivo dos Bispos continuaram a venerar a Benedito como Santo. Seu culto difundiu-se rapidamente em toda a Sicília, em Espanha, em Portugal e em muitos países da América Latina, especialmente junto da população negra, que o reconheceram como um símbolo de esperança e redenção. Em 24 de março de 1652 o Senado Palermo proclamou-o patrono e intercessor da cidade, comprometendo-se a ir todos os anos no aniversário de sua morte, em uma peregrinação ao seu túmulo levando quatro velas grandes.

            Em 15 de dezembro de 1743 o Papa Bento XIV proclamou-o abençoado. Nos anos subsequentes continuaram os pedidos de canonização até que em 1777 foram reconhecidos pela Congregação dos Ritos o heroísmo de suas virtudes e em 1790 os dois necessário milagres. Finalmente em 24 de maio de 1807, na solenidade da Santíssima Trindade, o Papa Pio VII, com a Bula "Civitatem Sanctam", Benedito foi proclamado Santo: o primeiro santo negro da história.

A Devoção a São Benedito

            Durante sua vida, todos queriam ver e tocar em São Benedito, por causa de sua fama de santidade, palavras, milagres e orações. Os escravos simpatizavam muito com ele, por ser negro, pobre e com grandes virtudes.

            Em torno do seu nome surgiram numerosas irmandades, e São Benedito é o padroeiro dos afro-americanos, e é lembrado por sua paciência e compreensão quando ele enfrentou o preconceito racial. A devoção a São Benedito se espalhou pelo mundo. Inclusive nos Estados Unidos, existem pelo menos cinco paróquias católicas romanas, negras, que levam seu nome: uma em Queens, Nova Iorque, uma em Chicago, Illinois, uma em Omaha, Nebraska, uma em South Columbus, Geórgia e outra em Savannah, Geórgia. No ano de 2000, quando passamos quase todo esse ano em Savannah, pelo tratamento de câncer de minha esposa, enquanto que trafegava por uma rua, por surpresa vimos um anuncio indicando a Igreja de São Benedito, o Mouro. Fomos lá, conhecemos o pároco e íamos sempre missa na Igreja de São Benedito em Savannah, e regressamos lá nos anos seguintes, quando íamos a Savannah visitar nossa filha e para os exames periódicos de minha esposa..

            Inegavelmente que a devoção de São Benedito é generalizada na América Latina, do México à Argentina, especialmente na Venezuela, onde sua devoção se estende por todos os vários Estados do país e é comemorado em várias datas diferentes, de acordo com as tradições locais. Como por exemplo na costa oriental do Sul do Lago de Maracaibo, realizada em 27 de dezembro (e Palmarito, Santa Maria, San Jose e San Antonio), a 1 de janeiro de Bobures e 6 do mesmo mês em Gibraltar, entre outros. Na Colômbia, há um município no departamento de Santander, que leva seu nome, e do qual São Benedito é o Santo patrono.

            Ele é conhecido na Venezuela, especialmente nos planaltos dos Estados andinos como Mérida, Táchira, e Trujillo. No Peru, na cidade de Lima, tive a satisfação de ver sua imagem venerada na Igreja de San Francisco de Assis, localizado no centro histórico, onde, no dia 4 de cada mês, é celebrada uma missa em sua dedicação e de onde sua imagem é levada em procissão. Em Leon, na Nicarágua e em Antigua, na Guatemala, com alegria vi sua imagem sendo venerada em igrejas históricas.
            O culto de São Benedito também é um dos principais cultos afro-católicos no Brasil, cuja devoção nos foi trazida pelos portugueses, e são inúmeras as paróquias e capelas que o escolheram como padroeiro, inspiradas em seu modelo admirável de caridade e humildade.

            Embora introduzido pela própria igreja, se culto serviu, como o de Nossa Senhora do Rosário, para nuclear em torno de si homens que possuíam suas crenças próprias, advindas do próprio meio de que vieram: os escravos africanos. São Benedito é um dos santos mais comemorado numa variedade de datas através do Brasil. Isso de acordo às tradições locais, tradições essas que injustamente foram abandonadas em algumas localidades brasileiras.

            O Estado da Bahia foi o pioneiro na devoção a São Benedito em terras brasileiras. Já antes mesmo de sua canonização havia lá uma irmandade em sua honra. Simultaneamente, a devoção ao Santo deitou profundas raízes no Maranhão. Sabe-se da existência de imagens de São Benedito pelo menos desde 1680, em Olinda, Recife, Igaraçu (PE), Belém do Pará e Rio de Janeiro.

            O mesmo sucedeu em São Paulo. Um século antes dele ser declarado santo pela Igreja, São Benedito já era venerado como tal nas igrejas frequentadas pelos membros da Venerável Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos (1707). Hoje a devoção a São Benedito é um fenômeno nacional. Não faltam pelo Brasil afora paróquias, capelas, ou ao menos um altar com a imagem do Santo Negro.

            Foi com surpresa que soube que apesar de São Benedito não ser o padroeiro de Cuiabá - essa função há décadas foi atribuída ao Senhor Divino -, ele “carrega nos ombros” o peso do título de “protetor da cidade”. Em Cuiabá, São Benedito é cultuado especialmente por pobres, negros, doentes e desempregados, e  é o santo que superlota a igreja antes do dia amanhecer, onde todas as terças-feiras centenas de idosos, jovens e até crianças acordam às 4:30h para ir ao santuário para agradecer ou para pedir alguma graça ao santo negro mais popular de Cuiabá.

O Culto a São Benedito em Campos dos Goytacazes

             A devoção a São Benedito em Campos dos Goytacazes, como no Brasil é assim muito antiga. Sabemos da existência de imagens de São Benedito desde inícios do século XVII, que eram veneradas pelos negros escravos em cidades importantes da época, como em Salvador, Rio de Janeiro, Olinda, Recife, Igaraçú (PE), e Belém do Pará. A devoção a São Benedito é o que há de mais independente e autônomo entre as devoções católicas, e que São Benedito é um ponto avançado da presença negra no catolicismo, que ele considera tão marcadamente branco na sua mentalidade.

Muitos autores ressaltam que São Benedito é o santo que recebe uma das maiores devoções de todo o povo brasileiro, apesar de ainda existir no Brasil a irracionalidade do preconceito racial. A esse respeito, São Benedito é o santo dos grandes, mas principalmente dos pequenos, e adverte: “diz o povo que São Benedito castiga, e que quem não o invoca, ao menos o respeita”. Sobre isso, os antigos Irmãos de São Benedito sempre contavam história falando que “ninguém deve menosprezar ou burlar das coisas dos devotos de São Benedito pois o santo não suporta essas atitudes”.

            A devoção a São Benedito é o que há de mais independente e autônomo entre as devoções católicas no Brasil. A documentação disponível indica que no processo de evangelização em Campos dos Goytacazes, como de maneira geral no Brasil, os escravos se reuniam informalmente para escutar dos missionários, as passagens da bíblia e muitas vezes relatos da vida de Benedito, um negro como eles e filho de escravos. Como facilmente se identificavam com esse personagem, que sentiam como sendo um dos seus, a devoção a Benedito foi crescendo continuamente pelo país.

            De uma maneira geral nos conventos (que possuíram muitos escravos), os escravos eram autorizados a reunir-se em Irmandades como de Nossa Senhora do Rosário ou de São Benedito, já que por serem negros não eram permitidos ingressar em outras irmandades e confrarias. Como vemos, Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e o nosso humilde São Benedito receberam a devoção dos escravos brasileiros e de seus descendentes que os seguiam em suas próprias igrejas. Com o passar dos anos, São Benedito se juntou aos devotos de Nossa Senhora do Rosário, e as igrejas do Rosário ou dos homens pretos passaram a ser também de São Benedito.

         Consta da tradição da Irmandade de São Benedito que era grande o número de escravos, libertos, e mestiços que participavam da Irmandade em Campos dos Goytacazes, desde os fundadores, nos primórdios de sua existência, e que durante sua vida continuou com muitos dos seus descendentes. Em Campos, não obstante o modo natural por que a instituição da escravidão era encarada – mormente na época do maior florescimento do tráfego negreiro, resultante da grande demanda de braços para a lavoura em ascensão – os senhores, em geral, tratavam bem os escravos e sempre que se lhes apresentava oportunidade não deixavam de demonstrar gratidão àqueles que merecessem, alforriando-os incondicionalmente ou então os filhos, logo depois de nascidos[1]. os senhores autorizavam, sem maiores problemas, a participação de seus escravos aos serviços religiosos e aos atos da Irmandade.

            Na verdade, mesmo antes da Carta Regia de 31 de janeiro de 1701, já era costume entre os senhores de permitirem aos seus escravos um dia livre por semana, quando eles podiam trabalhar por conta própria, e muitos deles ofereciam esse dia para trabalhos na construção de suas igrejas.

            Não poderia deixar de escrever sobre uma piedade falsa dos séculos 19 e 20 (até os anos 50) que queria atribuir uma cor de pele morena, quase branca, ao nosso santo, como se não ficasse bem a glorificação nos altares da raça negra. Lembro que assim como São Benedito, também Santo Elesbão e Santa Efigênia são de cor negra e deram muitas glórias à Nosso Senhor e à Igreja.

Conclusão:

            São Benedito é o primeiro negro canonizado na Igreja e seu exemplo de vida merece ser seguido. Ele passou a maior parte de sua vida religiosa na cozinha, a serviço dos irmãos, fazendo comida para os irmãos de sua comunidade. Passou sua vida servindo, no amor, na humildade, na alegria, conquistando a todos.

            São Benedito é um exemplo de vida centrada, feliz, humilde, simples. Ele foi um homem que sabia quem era, senhor de si e que estava a serviço dos outros. Foi um filho de escravos, nascido livre, mas que livremente se tornou escravo de Cristo, conquistando a verdadeira liberdade dos filhos de Deus.

            Desejo também ressaltar que na porta de sua cela, no Convento de Santa Maria de Jesus se encontra uma placa com a inscrição em italiano indicando que era a Cela de São Benedito tendo embaixo as datas 1524-1589, para indicar as datas do nascimento e de sua morte. Alguns autores entretanto indicam 1526 como o ano de seu nascimento, mas eu concordo com os Frades do Convento onde viveu São Benedito e com os historiadores que consideram que a data certa é 1524. 

            Peço sempre em minhas orações que São Bendito nos ajude a dar valor àquilo que realmente tem valor nesta vida. Que ele nos ensine a ser alegres mesmo nas dificuldades, e que interceda por nós para recebermos de Deus a graça de exercer o amor fraterno e também colocando a nossa vida ao serviço dos irmãos. Ao elevar São Benedito aos altares, a Igreja quis que nos lembrássemos continuamente que se um homem, comum e corrente, como Benedito, pôde amar verdadeiramente ao próximo como a si mesmo, também todos nós podemos!

            Espero que esta breve narrativa da minha experiência na busca de São Benedito possa servir de motivo para que reflexionar sobre esse maravilhoso Santo e que sua vida possa servir de exemplo para as nossas vidas.

            Gostaria também de sugerir a todos, que quando tiverem oportunidade, não deixem de visitar a Sicília, na Itália e a Igreja de Santa Maria de Jesus em Palermo, como também todos os lugares por onde São Benedito passou e viveu na Sicília. Estou certo que nessa visita sentirão em seus corações toda a alegria que eu senti ao procurar me encontrar com São Benedito.







[1] Como a condição civil do nascituro fosse regulada pelo ventre (nascimentos), acontecia que no caso do escravo, muitos senhores aguardassem o momento do batismo para libertá-lo – uns faziam inspirados apenas em sentimentos de caridade, outros como prova de reconhecimento à lealdade ou serviços porventura prestados à família pela mãe escrava.